SUSTENTABILIDADE
Pesquisa brasileira descobre bioherbicida inédito contra a buva a partir de bactéria da Caatinga

Os prejuízos provocados pela planta daninha buva nas lavouras de soja do País já alcançam cerca de R$ 5 bilhões por ano e podem chegar a R$ 9 bilhões caso o avanço da resistência a herbicidas continue no ritmo atual. Mas uma simples bactéria da Caatinga brasileira pode virar esse jogo.
Pesquisadores da Embrapa Meio Ambiente e da Universidade de São Paulo identificaram, em uma bactéria isolada nos solos desse bioma, compostos naturais capazes de inibir a germinação da planta daninha, abrindo caminho para o desenvolvimento de um bioherbicida inédito e adaptado à realidade agrícola do País.
Esta bactéria que se mostrou eficiente contra a buva, ao longo de um estudo que vem sendo desenvolvido há cerca de 10 anos. Ela, por exemplo, vem de um grupo de milhares outros microrganismos coletados na Caatinga, segundo o pesquisador Danilo Tosta Souza, da USP.
“Pode-se dizer que foi como encontrar uma agulha num palheiro”, diz Souza.
“A Caatinga é pouco explorada e possui uma infinidade de recursos biológicos que podem ser melhor estudados para o melhor desenvolvimento agrícola”, diz Souza, que segue ainda analisando os demais milhares de espécies coletadas no bioma.
Este trabalho incansável tem um efeito grandioso que é poder livrar os produtores de um fardo como a buva, que se traduz em perda direta de produtividade, aumento dos custos operacionais e maior pressão ambiental sobre os sistemas produtivos.
A buva como gargalo econômico da soja
Uma planta daninha ou invasora é essencialmente uma planta que vai competir por espaço, luz e nutrientes (caros) com vegetais de maior importância, como é o caso da soja. A buva, presente em praticamente todas as regiões produtoras da oleaginosa, consolidou-se como uma das principais inimigas dos agricultores brasileiros.
A espécie desenvolveu resistência a diferentes mecanismos de ação de herbicidas sintéticos, tornando o manejo mais caro e menos eficiente.
Estudos estimam que apenas uma planta por metro quadrado pode reduzir o rendimento da soja em até 14,6%. Em áreas com sete plantas por metro quadrado, as perdas de produtividade chegam a 50%, comprometendo o desempenho econômico da lavoura e dificultando operações de colheita.
Os efeitos financeiros desse cenário são expressivos. No Paraná, os custos adicionais associados ao controle de plantas daninhas resistentes alcançam cerca de R$ 2 bilhões por safra. No Rio Grande do Sul, a soma das perdas produtivas e dos gastos com manejo ultrapassa R$ 4 bilhões.
Em escala nacional, a buva já responde por uma fatia relevante dos prejuízos do sistema produtivo da soja, pressionando margens em um momento de custos elevados e maior escrutínio ambiental.
A alternativa em estudo surge da diversidade microbiana dos biomas brasileiros. O trabalho teve início com a triagem de actinobactérias, grupo de microrganismos conhecido pela capacidade de produzir compostos bioativos de interesse agrícola e farmacêutico.
Amostras coletadas em diferentes regiões do País foram avaliadas quanto ao potencial de inibição de plantas daninhas, mas foi a Caatinga que apresentou os resultados mais promissores.
Nesse bioma semiárido, marcado por altas temperaturas, escassez hídrica e solos pobres, destacou-se a cepa conhecida cientificamente por Streptomyces sp. Caat 7-52. O microrganismo demonstrou a capacidade de produzir metabólitos com forte efeito fitotóxico para a buva.
Para o pesquisador Itamar Soares de Melo, da Embrapa Meio Ambiente, a Caatinga funciona como um laboratório natural, no qual microrganismos desenvolvem estratégias bioquímicas singulares para sobreviver ao estresse ambiental, frequentemente resultando em moléculas inéditas.
Albociclina: uma atividade herbicida até então desconhecida
A análise química revelou dois compostos principais: o ácido 3-hidroxibenzóico e a albociclina. Embora já conhecida pela ciência, a albociclina tem, pela primeira vez, sua atividade herbicida descrita com este estudo.
Em testes laboratoriais, o composto foi capaz de inibir a germinação da buva em concentrações de apenas 6,25 µg/mL, desempenho considerado relevante para uma molécula de origem natural.
Segundo, o achado amplia o horizonte de aplicação da albociclina e reforça o potencial ainda pouco explorado da biodiversidade da Caatinga.
O bioma, frequentemente associado apenas à fragilidade ambiental, abriga uma diversidade microbiana adaptada a condições extremas, o que favorece o surgimento de metabólitos com alto valor funcional para a agricultura.
Escala, custo e viabilidade industrial
Além da identificação dos compostos, o estudo avançou na otimização das condições de cultivo da bactéria.
Ajustes no meio fermentativo permitiram aumentar a produção de albociclina e gerar análogos estruturais, ampliando a diversidade química disponível. Essa etapa é considerada estratégica para viabilizar a escalabilidade industrial de um futuro bioherbicida, ao elevar rendimento e flexibilidade de formulação.
Outro resultado relevante veio dos testes com o caldo fermentado bruto da bactéria. Sem necessidade de extração ou purificação química, o material apresentou efeito seletivo contra plantas daninhas dicotiledôneas, grupo que inclui buva, e outras plantas daninhas como o caruru e o picão-preto.
Na prática, isso reduz etapas industriais, diminui custos e elimina o uso de solventes, reforçando o apelo ambiental e econômico da solução.
Do laboratório ao campo
Os pesquisadores ressaltam que a tecnologia ainda se encontra em fase inicial. Os próximos passos incluem ensaios em condições de campo, avaliação da eficácia em diferentes culturas, estudos de ecotoxicologia e o desenvolvimento de formulações comerciais.
A expectativa é integrar a solução a programas de Manejo Integrado de Plantas Daninhas, combinando práticas biológicas, químicas e agronômicas para maior eficiência e menor impacto ambiental.
Biodiversidade como ativo estratégico do agronegócio
Mais do que um avanço pontual, a descoberta reforça o valor estratégico dos biomas brasileiros como fonte de inovação para o agronegócio e poder o país na área de biossoluções.
Em um país que figura entre os maiores consumidores de herbicidas do mundo, transformar biodiversidade em tecnologia representa uma oportunidade de reduzir a dependência de insumos importados, fortalecer o setor de bioinsumos e responder às crescentes restrições regulatórias e ambientais.
Ao conectar ciência, economia e biodiversidade, a pesquisa indica que a Caatinga pode deixar de ser vista apenas como um bioma vulnerável e passar a ocupar um papel central na construção de soluções para um dos maiores gargalos econômicos da soja brasileira.
Fonte: Portal souagro.net, publicado em 12/01/2025
Fonte da imagem: Freepik



