USO E APLICAÇÃO

Novo registro mostra comportamento alimentar de formiga invasora com potencial para controle biológico


Pesquisadores registraram pela primeira vez a interação entre a formiga invasora Allomerus auropunctatus e um corpo de frutificação vivo de fungo do gênero Ganoderma. Operárias coletaram exsudato produzido pelo fungo e utilizaram sua estrutura como local de forrageamento e possível área de nidificação. O trabalho também reuniu dados de ciência cidadã e reforçou a ampla flexibilidade alimentar da espécie.

A observação ocorreu em Laranjal Paulista, São Paulo, em uma área sob forte influência rural e urbana próxima ao rio Sorocaba. O local situa-se na transição entre Mata Atlântica e Cerrado. Os pesquisadores encontraram grupos de operárias sobre o corpo de frutificação durante o período noturno (doi 10.37486/2675-1305.ec08036).

Exsudato secretado pelo fungo

As formigas coletavam um exsudato secretado pelo fungo. Várias operárias chegavam ao ponto de alimentação em grupos coordenados. Os pesquisadores também observaram indivíduos entrando e saindo por aberturas naturais presentes na estrutura fúngica. Esse comportamento indicou possível uso do local para nidificação. A equipe não confirmou a abertura das cavidades pelas próprias formigas.

Restos de artrópodes apareceram próximos aos possíveis acessos do ninho. O material incluía fragmentos de insetos, sobretudo de outras formigas. Os pesquisadores interpretaram esses resíduos como possível resultado de predação oportunista ou descarte de alimento pela colônia. Outras formigas também visitaram o fungo para coletar a mesma substância.

Fungo decompositor de madeira

A interação apresenta interesse adicional por envolver um fungo decompositor de madeira. Espécies do gênero Ganoderma provocam podridão-branca em raízes e na parte inferior dos troncos de árvores de diferentes famílias botânicas. O micélio ativo pode secretar polissacarídeos em resposta a alterações ambientais, como mudanças de temperatura, pH e danos mecânicos.

No caso observado, os pesquisadores consideram possível uma associação entre a produção de polissacarídeos e alterações no micélio. O acúmulo de matéria orgânica depositada pela colônia pode ter influenciado o pH. Danos mecânicos também podem ter contribuído. Adultos de Mycotretus flavomarginatus alimentavam-se do corpo de frutificação e poderiam provocar lesões.

Relação causal?

O estudo não permite definir uma relação causal entre a atividade das formigas e a produção do exsudato. Também não permite determinar se a interação ocorre com frequência na natureza. O período de observação foi limitado. Uma visita realizada uma semana depois não possibilitou a coleta da colônia e do fungo, pois a área havia passado por queima e limpeza.

Para ampliar a análise, os pesquisadores examinaram 787 registros de Allomerus auropunctatus disponíveis no iNaturalist, com acesso também por meio do Global Biodiversity Information Facility. Imagens desfocadas, registros distantes, observações com iscas e situações de alimentação artificial foram descartados. A avaliação considerou características morfológicas visíveis e informações taxonômicas publicadas.

Entre os 787 registros revisados, 150 envolviam comportamento alimentar. Após a triagem, 25 foram excluídos. O conjunto final reuniu 125 observações. Destas, 32 ocorreram na área de distribuição nativa da espécie e 93 fora dela.

Estratégia alimentar

A coleta de honeydew de hemípteros apareceu como a estratégia alimentar mais frequente no levantamento. Os registros incluíram interações com membracídeos, afídeos e cochonilhas. A base também mostrou consumo ou aproveitamento de diversos artrópodes, além de recursos vegetais.

Cerca de 22,6% dos registros alimentares envolveram insetos usados como presas ou material de carcaças. As observações abrangeram representantes de Hymenoptera, Diptera, Lepidoptera, Coleoptera, Isoptera, Orthoptera e Hemiptera. Outros 21% mostraram uso de recursos vegetais. Néctar floral e extrafloral predominou nesse grupo, com registros adicionais de tecido foliar, pólen, seiva e frutos. Matéria orgânica não identificada apareceu em 9,4% dos casos.

O registro no fungo permaneceu único entre as observações avaliadas. Para os pesquisadores, o conjunto de dados demonstra a capacidade de Allomerus auropunctatus para explorar fontes alimentares variadas em diferentes ambientes. Essa plasticidade ajuda a compreender o sucesso ecológico da espécie, considerada uma das cem piores invasoras do mundo pela União Internacional para a Conservação da Natureza.

Classificação taxonômica

A classificação taxonômica da espécie também passou por mudança recente. Evidências filogenéticas levaram à sinonimização do gênero Wasmannia sob Allomerus. Assim, Wasmannia auropunctata passou a receber o nome Allomerus auropunctatus.

Os pesquisadores destacam ainda possível interesse da flexibilidade alimentar para estudos futuros de controle biológico. A interação com o fungo, porém, não parece produzir apenas benefícios ao organismo fúngico. As formigas podem predar insetos associados ao corpo de frutificação, mas o acúmulo de resíduos e a atividade dentro da estrutura também podem causar efeitos negativos. O trabalho não determina se essas alterações favorecem a produção de polissacarídeos usados como alimento ou atraem novas presas.

O trabalho foi realizado pelos cientistas João P. S. Medeiros, Karine S. Carvalho e Edgar B. Crispino.

 

Fonte: Revista Cultivar, publicado em 10/09/2026

Fonte da imagem: Magnific

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