ENTREVISTA
INMET analisa cenário climático e impactos sobre o manejo fitossanitário no Brasil

INMET – Instituto Nacional de Meteorologia
1- Qual é o cenário climático esperado para os próximos meses no Brasil e quais fenômenos devem exercer maior influência sobre as principais regiões produtoras?
O El Niño deve ser o fenômeno de maior influência sobre o clima do Brasil nos próximos meses. Segundo o Centro de Previsão Climática (CPC) da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA), a anomalia da temperatura da superfície do mar na região Niño 3.4 atingiu +2,5 °C na terceira semana de outubro. De acordo com a atualização do CPC, divulgada no dia 8 de outubro de 2026, a probabilidade de que ocorra um evento de El Niño muito forte no trimestre de novembro de 2026 a janeiro de 2027 é de 96% . Segundo o multimodelo objetivo desenvolvido em parceria pelo Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), o Centro de Previsão de Tempo e Clima do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (CPTEC/INPE) e a Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (FUNCEME), a previsão para o trimestre novembro-dezembro-janeiro (NDJ) indica chuvas acima da média em todos os estados da Região Sul, com desvios positivos de até 200 mm no Rio Grande do Sul, Santa Catarina e oeste do Paraná. A temperatura do ar deverá ficar levemente acima da média no Paraná e próxima da média climatológica em Santa Catarina. Já no Rio Grande do Sul, a tendência é de temperaturas até 2° abaixo da média.
Na Região Sudeste chuvas a previsão é de chuvas acima da média em São Paulo, no Triângulo Mineiro e no centro-sul de Minas Gerais, as temperaturas deverão ficar acima da média em toda a região. No Centro-Oeste, as chuvas tendem a ficar próximas ou abaixo da média em grande parte do Mato Grosso, Goiás e Distrito Federal. Já no Mato Grosso do Sul e sul de Goiás as chuvas deverão ficar acima da média climatológica, com desvios positivos de até 200 mm no sul do Mato Grosso do Sul. As temperaturas tendem a ficar até 2° acima da média em grande parte da região. No norte, as chuvas deverão ficar abaixo da média em quase toda a região, com desvios negativos de até 200 mm em áreas do norte e leste do Amazonas, sul de Roraima, Amapá e Pará. As temperaturas poderão ficar até 3 °C acima da média no Pará e norte do Tocantins. Na Região Nordeste, as chuvas deverão ficar abaixo da média, com desvios negativos de até 100 mm no Maranhão, Piauí, noroeste do Ceará e centro-norte da Bahia. As temperaturas deverão permanecer acima da média climatológica em toda a região. De forma geral, o cenário projetado para o verão 2026/27 indica condições mais favoráveis ao suprimento hídrico das lavouras no Sul e em parte do Sudeste, enquanto áreas do Norte e do Nordeste deverão continuar enfrentando maior risco de restrição hídrica. As temperaturas acima da média em grande parte do país podem elevar a demanda atmosférica por água, tornando o manejo hídrico e o monitoramento das condições das lavouras ainda mais relevantes ao longo da safra.


Figura 1. Previsão sazonal de anomalias de precipitação (esquerda, mm) e anomalias da temperatura média do ar (direita, °C), obtida pelo modelo objetivo multimodelo INMET/CPTEC/FUNCEME, para o trimestre novembro, dezembro de 2026 e janeiro de 2027. Fonte: INMET.
2- De que forma fenômenos como El Niño pode alterar os padrões de chuva, temperatura e umidade nas principais regiões agrícolas brasileiras?
O El Ninõ é a fase quente do fenômeno El Niño-Oscilação Sul (ENOS) e ocorre quando há um aquecimento anômalo das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial. Esse aquecimento altera a circulação atmosférica influenciando nos padrões de chuva e temperatura , fazendo com que os efeitos do fenômeno sejam sentidos de maneiras distintas entre as principais regiões agrícolas do Brasil. Na Região Sul, por exemplo, o El Niño costuma aumentar o volume, a frequência e a intensidade das chuvas. Como consequência, são mais comuns episódios de chuvas persistentes e acumulados acima da média climatológica.
Historicamente, os maiores desvios positivos de precipitação costumam ocorrer em dois momentos, o primeiro durante a primavera do ano em que o evento se estabelece e o segundo entre o final do outono e início do inverno do ano seguinte. Para a agricultura esse cenário traz oportunidades e desafios. A maior disponibilidade de água no solo geralmente beneficia culturas de sequeiro, como a soja e o milho. Por outro lado, em episódios mais intensos, o excesso de chuva pode atrasar a semeadura e comprometer a emergência das plantas e dificultar a entrada de máquinas no campo. Nos cereais de inverno, como o trigo, canola e cevada, a combinação de elevada umidade e menor disponibilidade de radiação solar tende a afetar a qualidade dos grãos e a colheita. Já nas áreas de terras baixas, os alagamentos frequentes podem atrasar o plantio de arroz irrigado.
Nas Regiões Norte e Nordeste, o El Niño costuma reduzir as chuvas e atrasar o início da estação chuvosa, favorecendo períodos mais secos e quentes. Na Amazônia esse padrão é geralmente mais intenso nas porções norte e leste. No Nordeste, os impactos dependem também das condições do Oceano Atlântico Tropical, mas os eventos mais fortes do El Niño costumam estar associados à redução expressiva das chuvas, especialmente no sertão e no semiárido. Com menor nebulosidade e maior incidência de radiação solar, as temperaturas tendem a ficar acima da média, aumentando a demanda atmosférica por água e acelerando a redução da umidade do solo. Esse cenário tende a prejudicar o estabelecimento das culturas de sequeiro, como a soja, milho e algodão, enquanto a ocorrência de veranicos mais intensos durante as fases vegetativas e reprodutivas tende a aumentar significativamente. O estresse hídrico e térmico favorece o abortamento de flores e vagens e reduz o potencial produtivo das lavouras. Além disso, cresce o risco de queimadas, especialmente em áreas mais suscetíveis à seca.
No Centro-Oeste os impactos do El Niño tendem a ser mais variáveis de um evento para o outro. Em alguns anos, observa-se atraso no início da estação chuvosa e a distribuição irregular das chuvas, alternando períodos secos com chuvas intensas e concentradas. Nessas condições, temperaturas elevadas e baixa umidade relativa do ar dificultam o estabelecimento inicial da soja e aumentam o risco de falhas na emergência. Quando ocorre o atraso na semeadura e colheita da soja, toda a dinâmica da segunda safra acaba sendo afetada, empurrando a implantação do milho safrinha para fora da janela ideal do Zoneamento Agrícola de Risco Climático (ZARC), aumentando a exposição da cultura à redução das chuvas no outono.
Na Região Sudeste os efeitos são mais heterogêneos e dependem da intensidade do fenômeno. Em alguns episódios, as chuvas tendem a ficar acima da média climatológica em São Paulo e no sul de Minas Gerais, enquanto no norte de Minas Gerais e no Espírito Santo tendem a registrar chuvas abaixo da média histórica. Além disso, há uma tendência de temperaturas acima da média, aumentando a ocorrência de eventos de ondas de calor. Para a agricultura esses padrões podem representar desafios para culturas como o café e a cana-de-açúcar. Quando as temperaturas elevadas coincidem com períodos de baixa disponibilidade hídrica no solo, aumentam o risco de estresse térmico e hídrico, com reflexos sobre o desenvolvimento, produtividade e qualidade da produção.
3- Como as alterações no regime de chuvas, temperatura e umidade podem favorecer ou reduzir a ocorrência de pragas e doenças nas lavouras?
As mudanças no clima afetam diretamente a interação entre as plantas, os patógenos e os insetos-praga, alterando a pressão fitossanitária sobre as lavouras. O aumento da umidade relativa do ar, períodos prolongados de molhamento foliar e a ocorrência de chuvas intensas favorecem o desenvolvimento de diversas doenças fúngicas e bacterianas, além de criarem condições propícias para infecções radiculares em função do encharcamento do solo e da menor disponibilidade de oxigênio para as raízes.
Ao mesmo tempo, temperaturas mais elevadas podem acelerar o ciclo de vida de insetos como a lagarta da soja e intensificar a multiplicação e a disseminação de determinados patógenos, especialmente quando há disponibilidade hídrica adequada. Esses efeitos tendem a ser ainda mais expressivos quando fatores como temperatura, umidade e chuva atuam de forma combinada, criando condições ideais para a ocorrência de epidemias capazes de comprometer significativamente a produtividade das culturas, como observado em doenças como a brusone do arroz e a ferrugem asiática da soja.
Por outro lado, condições mais secas e práticas de manejo que reduzem a umidade no microclima da cultura, como a adoção de sistemas de irrigação localizada, tendem a limitar o desenvolvimento e a disseminação da maioria dos fungos e bactérias fitopatogênicos. Nesse contexto, a crescente variabilidade climática reforça a importância do monitoramento fitossanitário e da adoção de estratégias de manejo cada vez mais adaptadas às novas condições ambientais.
4- Quais culturas e regiões agrícolas tendem a ser mais sensíveis às condições climáticas previstas e, consequentemente, podem apresentar mudanças na pressão de pragas e doenças e na necessidade de manejo fitossanitário?
As condições climáticas previstas para o próximo trimestre indicam diferentes níveis de atenção fitossanitária entre as regiões produtoras do país. De modo geral, as áreas com excesso de chuva tendem a apresentar maior favorabilidade ao desenvolvimento de doenças, enquanto as regiões mais quentes e secas podem registrar aumento da pressão de determinadas pragas e maior dificuldade na realização de pulverizações.
No Sul, as condições mais favoráveis ao aumento da pressão fitossanitária associada ao excesso de umidade devem ocorrer em áreas de soja, feijão e trigo tardio. A previsão de chuvas acima da média e de períodos prolongados de molhamento foliar poderá favorecer o desenvolvimento de doenças foliares, especialmente nas lavouras de soja que estiverem em estádios reprodutivos, incluindo a ferrugem-asiática. Além disso, os elevados volumes de chuva podem aumentar a ocorrência de patógenos de solo, favorecendo problemas relacionados a podridões radiculares e comprometendo a emergência e o estabelecimento das lavouras. Nas lavouras de trigo ainda em fase de colheita, a persistência das chuvas pode elevar o risco de perdas de qualidade dos grãos e de contaminação por micotoxinas associadas à giberela.
No MATOPIBA, assim como em áreas do Norte do país, o cenário é diferente. A combinação de temperaturas elevadas e déficit de chuva durante o trimestre, poderá favorecer a ocorrência de pragas mais adaptadas a ambientes quentes e secos, como a mosca-branca e ácaros. Além disso, a baixa umidade relativa do ar tende a reduzir a eficiência das pulverizações devido ao aumento da evaporação das gotas e do risco de deriva. Culturas em fase de implantação, como soja, milho e algodão, poderão apresentar maior sensibilidade caso a irregularidade das chuvas persista por períodos prolongados.
Além dos impactos fitossanitários, as temperaturas acima da média previstas para grande parte do país podem elevar a demanda atmosférica por água e aumentar o consumo hídrico das culturas, intensificando eventuais efeitos de períodos de estiagem ou de distribuição irregular das chuvas.
De forma geral, o trimestre exigirá estratégias de manejo distintas dos produtores, nas áreas mais úmidas, o principal desafio deverá ser o aumento da favorabilidade para doenças e a redução das janelas operacionais para aplicação de defensivos. Já nas regiões mais quentes e secas, a atenção deverá se voltar para o aumento da pressão de algumas pragas, para a menor eficiência das pulverizações e para os efeitos do estresse hídrico sobre as culturas. Entretanto, a intensidade desses impactos dependerá não apenas das condições climáticas, mas também da suscetibilidade das cultivares, do histórico fitossanitário das lavouras e das práticas de manejo adotadas.
5- Olhando para os próximos anos, quais tendências ou mudanças nos padrões climáticos devem ganhar maior atenção do agronegócio, especialmente considerando seus possíveis reflexos sobre o manejo fitossanitário das culturas?
Três tendências climáticas merecem atenção do agronegócio nos próximos anos em razão de seus potenciais impactos sobre a produção agrícola e o manejo fitossanitário das culturas. A primeira delas é a mudança nos padrões de precipitação, com distribuição cada vez mais irregular no tempo e no espaço. No Sul do Brasil e em outras áreas do sul da América do Sul, observa-se uma tendência de aumento das chuvas e da frequência de eventos extremos. Esse cenário amplia os períodos de molhamento foliar, reduz as janelas favoráveis para operações de campo e pode aumentar a pressão de doenças fúngicas em diversas culturas. Além disso, o excesso de chuva pode dificultar o tráfego de máquinas, comprometer a eficiência das aplicações fitossanitárias e favorecer a ocorrência de patógenos associados ao solo. Por outro lado, em partes do Nordeste brasileiro, as projeções indicam aumento da frequência e da duração dos períodos secos, elevando os riscos associados ao déficit hídrico e ao estresse das culturas.
A segunda tendência é o encurtamento da estação chuvosa em áreas do Cerrado brasileiro. Em diversas regiões produtoras, as chuvas têm apresentado início mais tardio e término mais cedo, reduzindo a duração da janela climática favorável ao desenvolvimento das lavouras. Esse comportamento aumenta os riscos durante a implantação das culturas de verão, dificulta o planejamento das operações agrícolas e pode comprometer o potencial produtivo dos sistemas de sucessão, especialmente soja e milho segunda safra. Além disso, períodos mais prolongados de deficiência hídrica tendem a favorecer algumas pragas adaptadas a ambientes quentes e secos, como mosca-branca e ácaros, além de reduzir a eficiência de determinadas práticas de manejo.
A terceira tendência está relacionada ao aumento das temperaturas e à maior ocorrência de eventos de calor extremo. As temperaturas mais elevadas aumentam a demanda evaporativa da atmosfera, elevam o consumo hídrico das culturas e podem intensificar os efeitos de veranicos e períodos de estiagem. Do ponto de vista fitossanitário, o aquecimento tende a acelerar o ciclo de vida de diversos insetos-praga, permitindo maior número de gerações ao longo de uma mesma safra. Além dessas tendências de longo prazo, a variabilidade natural do clima continuará desempenhando papel fundamental na agricultura brasileira. Fenômenos como o El Niño e a La Niña seguirão influenciando a distribuição das chuvas, a ocorrência de eventos extremos e os riscos fitossanitários em diferentes regiões do país.
Equipe Global Crop Protection, 28/10/2026
Fonte da imagem: Magnific



