ENTREVISTA
Franklin Behlau – Gestor de Pesquisa Aplicada no Fundecitrus – comenta o avanço do greening e as novas estratégias de manejo na citricultura


Franklin Behlau é engenheiro-agrônomo pela Universidade Estadual de Londrina, com mestrado pela ESALQ/USP e Ph.D. em Fitopatologia pela University of Florida (2010). Atuou por 15 anos como pesquisador no Fundecitrus, com foco no manejo de doenças dos citros. Em 2025, assumiu o cargo de gestor de Pesquisa Aplicada, coordenando uma área voltada ao desenvolvimento de soluções sustentáveis para o manejo de pragas, doenças e práticas culturais na citricultura.
- Como o Fundecitrus avalia a evolução da incidência de greening nos principais polos citrícolas do país e de que forma esse cenário tem influenciado a demanda por defensivos mais específicos?
A doença (greening) foi detectada no Brasil em 2004 e, desde então, apresentou crescimento gradual na incidência, com um aumento mais acentuado entre 2023 e 2024. Atualmente, cerca de 47,6% das árvores do cinturão citrícola estão infectadas, um índice alto e preocupante, mas ainda relativamente melhor que o observado em outras citriculturas no mundo.
A incidência é heterogênea: segundo o levantamento anual da incidência de greening, produzido pelo Fundecitrus em 2025, regiões como sul e o sudoeste de São Paulo (Limeira, Porto Ferreira, Aguaí, Avaré e Duartina) registram índices entre 60% e mais de 70%, enquanto áreas mais quentes, como Votuporanga e o Triângulo Mineiro, apresentam índices bem menores. Isso ocorre porque o clima mais quente é menos favorável tanto à bactéria quanto ao inseto vetor, o psilídeo. Por isso, há uma tendência de expansão dos plantios para essas áreas menos favoráveis à doença.
O aumento recente da incidência esteve ligado principalmente à explosão populacional do psilídeo, favorecida por condições climáticas adequadas, uso excessivo e concentrado de inseticidas (como piretroides e neonicotinoides), que levou à resistência do inseto, e aos impactos da COVID-19 na organização do manejo. Diante desse cenário, foram adotadas estratégias como a rotação de diferentes grupos de inseticidas e a criação de uma plataforma de monitoramento que orienta produtores sobre a eficácia dos produtos, o Avalia Psilídeo. Enquanto em áreas tradicionais há registro de resistência, nas regiões de expansão o psilídeo ainda se mostra sensível aos inseticidas.
O setor também enfrenta desafios como a redução da área plantada no cinturão citrícola, causada pela pressão do greening, o que exige maior eficiência dos produtores e o desenvolvimento de novos defensivos. Apesar de existirem outras estratégias de manejo, o controle rigoroso do psilídeo permanece como um dos principais pilares, juntamente com inspeção constante, eliminação de plantas doentes, uso de mudas sadias e escolha de áreas adequadas para novos plantios.
- Quais são os principais desafios e oportunidades para a indústria de defensivos investir em inovação e atender às necessidades dos citricultores brasileiros?
A citricultura brasileira está localizada em clima tropical e subtropical, diferente de muitas regiões produtoras do mundo, que têm clima mais frio ou mediterrâneo. As condições de calor e umidade aqui favorecem fortemente pragas e doenças, o que torna o manejo muito mais desafiador. Ainda assim, o Brasil é líder mundial na produção de laranja, mesmo enfrentando praticamente todas as principais doenças e pragas da cultura.
Entre elas, há doenças causadas por vírus (como a leprose), por fungos (como pinta preta e podridão floral) e por bactérias (como o cancro cítrico e o greening). Entre as pragas, o bicho-furão e a mosca-das-frutas estão entre as que mais impactam a produção. Cada uma possui características distintas, o que exige estratégias e produtos específicos, não existe uma única solução eficaz para todos os problemas.
O desenvolvimento de novas moléculas é cada vez mais difícil, tanto porque muitas já foram descobertas quanto pelas restrições atuais relacionadas a resíduos e impacto ambiental. No caso do greening, o maior desafio é o controle do psilídeo, vetor da bactéria, especialmente com inseticidas sistêmicos e de maior efeito residual, sendo que em poucos dias a folha cai, o broto fica desprotegido, e o psilídeo tem acesso, bastando uma única picada para transmitir a doença.
Outra linha de pesquisa promissora é o tratamento direto da bactéria por meio da endoterapia, técnica que consiste na injeção de substâncias no tronco da planta. Trata-se de uma abordagem rara na agricultura e particularmente complexa, pois a molécula precisa atingir o floema, onde a bactéria se instala. Isso é difícil porque o floema é um tecido de circulação restrita, exigindo que o produto percorra diferentes estruturas internas da planta até alcançar o local de infecção.
Para outras doenças, já existem ferramentas eficazes de manejo, como sistemas de alerta climático para podridão floral, uso de cobre para cancro cítrico e produtos biológicos. No entanto, o greening continua sendo um desafio muito maior, onde dificuldade e oportunidade caminham juntas na busca por soluções inovadoras.
- Na visão do Fundecitrus, de que forma os bioinsumos podem contribuir para o manejo fitossanitário da citricultura e, especificamente, para o fortalecimento das estratégias de prevenção e enfrentamento do greening?
A citricultura brasileira possui um dos maiores exemplos de controle biológico da agricultura, embora não seja um produto comercial. Trata-se da pré-imunização das mudas de laranja Pêra contra o vírus da tristeza: as plantas são inoculadas com uma estirpe fraca do vírus, o que as protege contra estirpes mais agressivas no campo, um caso clássico de uso de um vírus atenuado para controlar outro mais severo.
Além disso, há outras estratégias de controle biológico já utilizadas, como produtos à base de Bacillus thuringiensis para o bicho-furão, Bacillus subtilis para cancro cítrico. Em específico para o controle do psilídeo, vetor do greening, é a base do Cordyceps, esses fungos são pulverizados e, ao entrar em contato com o inseto, o colonizam e o levam à morte. No entanto, seu efeito é limitado, pois dependem do contato direto e não possuem ação residual significativa, se o inseto chegar após a aplicação, não será afetado.
O controle biológico de vetores é mais desafiador do que o de pragas comuns, pois no caso do psilídeo é necessário um nível de controle próximo de zero, já que uma única picada pode transmitir a bactéria do greening. Além disso, produtos biológicos costumam ter ação mais lenta.
Outra frente promissora são os peptídeos, pequenas cadeias de aminoácidos classificadas como bioquímicos ou bioinsumos. Eles podem ser desenvolvidos tanto para atuar no psilídeo quanto diretamente na bactéria, inclusive via endoterapia. São moléculas mais específicas e ambientalmente amigáveis, mas enfrentam o desafio de alcançar a bactéria no floema ou garantir eficiência prolongada contra o inseto.
Apesar das limitações, já existem ferramentas biológicas disponíveis e em uso na citricultura. O grande desafio continua sendo aumentar sua eficiência e ampliar seu efeito residual, especialmente no controle do psilídeo e do greening.
- Em relação ao processo de inclusão de produtos na lista da Protecitrus, como ele funciona atualmente? Quais os requisitos utilizados para homologação dos produtos? A iniciativa de solicitação costuma partir dos próprios fornecedores? Existem prazos ou janelas específicas para submissão e avaliação desses produtos?
A ProteCitrus é uma lista mais seletiva de defensivos agrícolas já registrados para citros no Brasil, destinada especificamente a pomares que produzem suco de laranja para exportação. Sua existência está ligada às exigências dos mercados internacionais, como União Europeia, Estados Unidos e Ásia, que determinam quais produtos podem ser utilizados, com base nos limites máximos de resíduos (LMRs) permitidos. Portanto, não se trata de uma exigência da indústria ou do Fundecitrus, mas de uma condição imposta pelos países importadores: sem cumprir essas regras, o suco não pode ser comercializado nesses mercados.
Para que um produto esteja na lista, ele precisa atender a dois critérios principais: ser registrado para citros no Brasil e possuir LMRs compatíveis com os padrões dos mercados compradores. Um dos grandes desafios é que, muitas vezes, um defensivo eficaz no controle de pragas pode não ser aceito em determinados países, o que limita seu uso na citricultura voltada à exportação.
Essa rigorosa seleção é fundamental porque o Brasil, especialmente São Paulo, responde por cerca de 75% a 80% do suco de laranja comercializado mundialmente. Manter a conformidade com as exigências internacionais é essencial para preservar esse mercado construído ao longo de décadas.
A ProteCitrus é formada por representantes da indústria, produtores e Fundecitrus, que se reúnem periodicamente (em geral três vezes ao ano) para revisar e atualizar a lista. A inclusão de produtos é voluntária por parte das empresas, e a atualização ocorre de forma dinâmica, sempre alinhada às exigências dos mercados internacionais.
- Considerando que o oxicloreto de cobre é um ativo de grande importância para a citricultura e que, nos últimos meses, tem apresentado aumento de preços e instabilidade no fornecimento. Na lista da ProteCitrus existem produtos com diferentes concentrações desse ativo. Há alguma parametrização ou critério técnico adotado para a indicação dessas opções? Qual é a recomendação da ProteCitrus em relação ao uso desse ativo em cenários de oferta restrita?
Na citricultura, os produtos à base de cobre são amplamente utilizados para o controle de doenças bacterianas e fúngicas, como pinta preta e cancro cítrico. Existem dois grupos principais de cobre: cobres fixos ou insolúveis (óxido de cobre, oxicloreto de cobre e hidróxido de cobre), que possuem alta concentração de cobre metálico e atuam diretamente no controle de doenças, e cobres solúveis (nitrato ou sulfato de cobre), com função principalmente nutricional, sem efeito direto sobre patógenos.
Todas as formulações de cobre fixo já registradas para citros podem ser incluídas na ProteCitrus, respeitando a bula original do produto. A dose eficaz deve ser calculada com base no cobre metálico, que é o ingrediente ativo, independentemente da formulação usada. A escolha entre as diferentes formulações pode ser guiada por fatores como facilidade de dispersão, aplicação e logística, mas não altera a eficácia, desde que a dose de cobre metálico seja correta.
A inclusão na ProteCitrus é voluntária pelas empresas e segue a bula do produto, sem parametrizações específicas pela lista. Qualquer regulamentação adicional sobre doses ou uso é definida pelo MAPA, não pela ProteCitrus.
Como exemplo podemos citar o manejo do cancro cítrico, a dose recomendada é calculada em cobre metálico por metro cúbico. Ensaios mostraram que, à medida que o pomar envelhece, a dose pode chegar até 1 kg de cobre metálico por hectare, mais do que isso, não deve trazer benefício no controle da doença. Na bula dos produtos à base de cobre, as doses recomendadas seguem essa mesma lógica, mantendo variações pequenas e consistentes com esses valores.
6.Como o trabalho do Fundecitrus contribui para o fortalecimento e a competitividade da citricultura brasileira, especialmente diante dos desafios fitossanitários e estruturais do setor, e de que forma essa atuação reforça a relevância da cadeia citrícola para empresas de insumos e defensivos interessadas em investir em inovação e tecnologia?
O Fundecitrus é uma instituição que valoriza e fortalece parcerias, pois entendemos que os desafios da citricultura exigem atuação conjunta e integrada. Nosso trabalho é pautado em pesquisa científica de excelência, com foco no desenvolvimento de soluções eficientes e viáveis para que os citricultores possam implementar diretamente em seus pomares. Mais do que gerar conhecimento, nosso compromisso é transformar resultados de pesquisa em práticas aplicáveis no campo.
Mantemos um elo permanente entre produtores, pesquisadores e empresas de insumos, promovendo a transferência de tecnologia, a educação e a comunicação direta com os citricultores. Esse diálogo constante é fundamental para garantir um manejo mais eficiente e uma citricultura cada vez mais sustentável.
Diante dos inúmeros desafios enfrentados pelo setor, contamos com parceiros que desenvolvam produtos e tecnologias eficazes, alinhados às necessidades do campo. O Fundecitrus está sempre de portas abertas para novas parcerias que contribuam para o fortalecimento e a construção de uma citricultura brasileira mais sustentável, inovadora e competitiva.
É fundamental que as empresas de insumos e defensivos ampliem seu olhar estratégico para a citricultura, reconhecendo-a como uma das cadeias mais relevantes da agricultura brasileira, responsável por significativa geração de divisas e por forte impacto econômico e social. Trata-se de um setor altamente tecnificado, exigente em inovação e aberto à incorporação de novas soluções. As empresas que investirem no desenvolvimento de portifólio específico e em tecnologias direcionadas à citricultura certamente agregarão valor à sua marca, fortalecerão sua presença no mercado e construirão parcerias sólidas e duradouras com produtores e instituições do setor.
Nosso foco permanece claro: pesquisa, educação e transferência de tecnologia para apoiar o produtor na tomada de decisões e na sustentabilidade da atividade.
Equipe Global Crop Protection, 23/02/2026



