ENTREVISTA

Sarsher Liu – Pesquisadora e Fundadora da Jiangyin Penguin Biotech- analisa o mercado chinês de defensivos agrícolas


Sarsher Liu – Profissional com cerca de 20 anos de experiência na indústria de glifosato, atuando desde matérias-primas e intermediários até formulações, com forte conhecimento de mercado e parcerias consolidadas com produtores chineses. Também possui expertise em equipamentos de mistura industrial, oferecendo soluções para otimização de processos e manutenção. Além disso, conta com experiência no setor de mirtilo, incluindo cultivo, comercialização e proteção de plantas.

 

 

1.Nos últimos anos, questões geopolíticas, logísticas e regulatórias têm impactado o fornecimento global de defensivos. Como esses fatores têm influenciado as estratégias das empresas chinesas no mercado internacional?

 Tensões geopolíticas, interrupções logísticas e regulamentações mais rígidas levaram as empresas chinesas de agroquímicos a migrar de um modelo de exportação pura para uma estrutura globalizada + diversificação da cadeia de suprimentos.

  • As empresas estão construindo registro local, formulação e armazenagem em mercados-chave como Brasil, Europa e América do Norte para reduzir riscos transfronteiriços.
  • Elas priorizam química verde, biossoluções e produtos de alta eficiência para atender aos padrões ambientais globais.
  • As cadeias de suprimento estão se tornando mais resilientes: abastecimento em múltiplas regiões, produção flexível e parcerias mais próximas com distribuidores locais.

Em resumo, os players chineses estão passando de “líderes em custo” para “parceiros globais confiáveis”, focados em estabilidade, conformidade e sustentabilidade.

2.O Brasil é um dos maiores consumidores de defensivos do mundo. Na sua visão, como a relação comercial entre China e Brasil pode evoluir diante de um cenário global mais fragmentado e competitivo?

 China e Brasil devem evoluir de uma relação comercial de comprador-vendedor para uma parceria agrícola estratégica.

  • O Brasil precisa de insumos estáveis, de alta qualidade e com preços competitivos; a China possui a cadeia de abastecimento e a capacidade de produção mais completas do mundo.
  • A cooperação deve se aprofundar em formulação local, registro, biossoluções e agricultura sustentável.
  • A concorrência existirá, mas será construtiva: ela impulsiona ambos os lados a melhorar a eficiência e a inovação.

Contra a fragmentação, a complementaridade China–Brasil é uma força estabilizadora para a segurança alimentar global.

3.Há uma crescente pressão por redução de dependência de determinados países na cadeia de insumos agrícolas. Como as empresas chinesas estão se posicionando frente a esse debate sobre segurança e diversificação de suprimentos?

 As empresas chinesas estão respondendo com três medidas claras:

  • Presença produtiva diversificada: centros locais na América do Sul, Europa e Sudeste Asiático para evitar riscos associados a um único ponto.
  • Registo antecipado e ativos regulatórios: pedidos de registros antecipados para garantir o acesso ao mercado e a estabilidade do abastecimento.
  • Colaboração aberta: trabalho em conjunto com parceiros locais, distribuidores e governos para construir cadeias resilientes.

Apoiamos a diversificação do abastecimento e vemos a China como um fornecedor central estável e responsável, em vez de uma fonte de dependência. 

4.Regulações ambientais mais rígidas na Europa e em outros mercados têm redefinido o desenvolvimento de defensivos. Como essas exigências influenciam a estratégia global da indústria chinesa?

Padrões ambientais mais elevados estão acelerando a modernização industrial, não freando o crescimento.

  • Empresas chinesas estão ampliando P&D em biopesticidas, formulações ecológicas e produtos com baixo resíduo e baixa toxicidade.
  • A produção está migrando para processos mais limpos, economia circular e gestão digital.
  • A estratégia global agora segue o princípio de “registro e sustentabilidade em primeiro lugar” para entrar em mercados de elevados padrões.

Isto está impulsionando a indústria de proteção de culturas da China no sentido de uma inovação ecológica de alto valor e alta qualidade.

5.A inovação em defensivos e bioinsumos também se tornou um ativo estratégico entre países. Como você enxerga a competição e ao mesmo tempo a cooperação entre China, Estados Unidos, Europa e Brasil nesse campo?

O futuro é de coopetição: competição em tecnologia e cooperação na segurança alimentar e sustentabilidade.

Competição: em ingredientes ativos, biociência, tecnologia de formulação e agricultura digital.

Cooperação: necessária para gestão de resistência de pragas, adaptação climática e oferta global de alimentos.

A China está disposta a compartilhar tecnologias maduras e economicamente viáveis com o Brasil e outros mercados, ao mesmo tempo que colabora em inovações de última geração.

6.Considerando o cenário global de oferta e demanda, como você avalia a evolução da capacidade produtiva de etiprole, clorantraniliprole, diclosulam e clorfenapir nos próximos anos: tende a se manter estável ou a crescer?

Em geral, a procura crescerá moderadamente; a capacidade se aumentará, mas de forma mais estruturada.

Clorantraniliprole: a procura permanece forte em soja, milho e arroz. A capacidade cresceu rapidamente na China; o crescimento futuro será racional e orientado à qualidade, não uma expansão cega.

Clorfenapir: crescimento constante impulsionado por hortaliças, frutas e gestão de resistência; a China continuará sendo o principal produtor mundial.

Etiprole e Diclosulam: Nicho de mercado, mas de alto valor; a capacidade crescerá moderadamente com a expansão do registro e da aplicação.

Nos próximos anos, a capacidade crescerá moderadamente, mas de forma saudável, com um melhor equilíbrio entre a oferta e a procura.

7.Considerando os últimos anos, os produtores brasileiros têm adquirido os produtos “just in time”. Entendemos que esse comportamento deve se refletir em toda a cadeia. Você vê alguma mudança no posicionamento da indústria no mercado chinês?

As empresas chinesas estão adaptando-se plenamente a esta tendência através de uma reforma da cadeia de abastecimento localizada:

  • Construção de armazéns locais, fábricas de formulação e centros de distribuição no Brasil para uma entrega mais rápida.
  • Otimização do inventário com previsões baseadas em dados para corresponder à procura JIT.
  • Simplificando os canais: trabalhando diretamente com importadores, cooperativas e retalhistas para reduzir o tempo de resposta.
  • Reforçando o serviço técnico local para apoiar a aplicação atempada.

Estamos migrando de “enviar da China” para “atender a partir do Brasil”, apoiando as necessidades JIT dos agricultores.

 

Equipe Global Crop Protection, 05/03/2026

Fonte da imagem:  Freepik

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