ENTREVISTA

Nathália Rocha – Analista Líder do Global Crop Protection – avalia o mercado de defensivos agrícolas e apresenta perspectivas para 2026


Nathalia Rocha, Graduada em Ciências Econômicas pela Esalq (USP-Piracicaba). Atua há 4 anos na área de inteligência de mercado de defensivos. Atualmente é chefe de mesa no Global Crop Protection, com foco em pesquisa, análise e explanação das tendências do mercado.

 

1- A indústria de defensivos na China vem passando por transformações nos últimos anos. Que impactos essas mudanças podem trazer para o mercado brasileiro de defensivos?

A partir do segundo semestre de 2023, o governo chinês implementou pacotes de incentivos voltados à produção industrial interna, o que contribuiu para a redução do custo de produção dos fabricantes de defensivos. Além disso, a indústria de defensivos da China tem expandido a produção de produtos formulados, permitindo que os fabricantes comercializem diretamente no Brasil, sem depender de empresas formuladoras locais. No cenário brasileiro, outro fator relevante foi a atuação do MAPA, que passou por uma transformação que trouxe mais agilidade e permitiu a liberação de mais registros de defensivos nos últimos anos, incluindo para os fornecedores chineses. O cenário facilitou o acesso desses produtos ao mercado nacional e trouxe todo o aumento da competitividade que temos visualizado nos últimos anos.

2- Existe risco de faltar alguma molécula importante no mercado? Quais são os produtos mais preocupantes?

O formato de compras “da mão para a boca” pelos produtores tem causado gargalos logísticos. Paralelamente, diante dos resultados financeiros recentes, as fornecedoras estão buscando reduzir custos e, por isso, não devem manter grandes estoques no mercado nacional, o que aumenta ainda mais o risco de fornecimento.
Dentre as categorias, os herbicidas poderão ser mais afetados, dado que grande parte são itens de baixa rentabilidade e maior desinteresse dos fornecedores. Neste sentido, moléculas que poderão sofrer mais impactos de restrições pontuais são 2,4D, glifosato, glufosinato, flumioxazina e amicarbazona.

3- Por que é tão importante o produtor se planejar com antecedência para comprar os defensivos? Como ele pode se organizar melhor para ter o produto certo na hora certa?

O planejamento antecipado na aquisição de defensivos agrícolas é estratégico para a otimização de custos e a mitigação de riscos logísticos e operacionais. Dessa forma, o ideal é que ocorra um alinhamento prévio com seu fornecedor sobre suas respectivas demandas, para que haja um fornecimento adequado, evitando a compra próxima ao período de aplicação. Dado o cenário que comentamos a respeito das indústrias de defensivos, compras muito próximas a necessidade de entrega poderão sofrer com delay e impactar o manejo no campo, além de apresentarem preços mais altos.

4- A pressão por sustentabilidade e novas regras ambientais estão mudando o uso de defensivos. Como o produtor pode se adaptar sem perder produtividade?

Diante do aumento da pressão por sustentabilidade e da adoção de regras ambientais mais rigorosas, o uso de defensivos agrícolas está passando por uma transformação. Para se manter produtivo e dentro das exigências legais, o produtor precisa adotar estratégias mais inteligentes no campo. O manejo integrado de pragas (MIP), por exemplo, tem ganhado força ao combinar métodos químicos, biológicos e culturais de forma equilibrada. Além disso, cresce o uso de defensivos biológicos, que oferecem alternativas eficazes e menos agressivas ao meio ambiente. Tecnologias de aplicação de precisão, como drones e sensores, também estão ajudando a reduzir o desperdício e os impactos ambientais. A rotação de culturas, o monitoramento constante das lavouras e a agricultura de precisão são outras práticas que contribuem para uma produção mais sustentável sem comprometer os resultados. Manter-se atualizado sobre as novas normas e produtos disponíveis no mercado é fundamental para garantir competitividade e conformidade ambiental.

5- Os bioinsumos têm crescido no campo. Eles já são uma alternativa viável para o produtor? Em quais situações vale a pena usar?

Sim, atualmente os bioinsumos já são uma realidade nas produções agrícolas mundiais. Somente no Brasil, o mercado movimentou cerca de R$ 6 bilhões na safra 2024/25, com crescimento contínuo ano a ano. O MAPA já registra mais de 900 produtos biológicos aprovados, abrangendo diferentes culturas e pragas-alvo. As projeções indicam que o setor deve ultrapassar R$ 9 bilhões até 2030, reforçando sua relevância estratégica. Em suma, junto ao MAPA, a maioria dos produtos possuem liberação para uso em qualquer cultura que apresente a praga-alvo. O uso de bioinsumos vale particularmente a pena em situações como o controle de pragas e doenças específicas (como lagartas ou nematoides), o fortalecimento do solo com microrganismos benéficos, e a fixação biológica de nitrogênio em culturas como soja, feijão e milho. Eles também são recomendados para áreas de cultivo orgânico, regiões com restrições ambientais severas, ou propriedades que buscam certificações sustentáveis. Porém, seu uso exige planejamento técnico, pois muitos bioinsumos têm ação mais lenta e dependem de condições ambientais favoráveis para serem efetivos.

6- Quais mudanças no perfil de compra de defensivos têm sido observadas nos últimos anos? Há preferência em relação a uma categoria específica de produtos?

Sim. Nos últimos anos, o perfil de compra de defensivos tem passado por mudanças relevantes. O produtor está cada vez mais atento ao custo-benefício e à segurança regulatória dos produtos, o que tem levado a uma maior busca por soluções genéricas e pacotes tecnológicos negociados em escala. Entre as categorias, os herbicidas continuam liderando a demanda, especialmente em culturas como soja e milho, devido ao aumento da resistência de plantas daninhas e à necessidade de manejo mais intensivo. Os inseticidas também ganharam espaço, impulsionados por surtos de pragas em diferentes regiões. Já os fungicidas e biológicos vêm crescendo em participação, mas ainda de forma mais concentrada em produtores capitalizados ou em áreas com certificações sustentáveis. Em resumo, observa-se uma tendência de diversificação do portfólio, mas com foco em produtos essenciais e maior racionalização das compras, evitando estoques elevados e priorizando negociações antecipadas.

 

Equipe Global Crop Protection, 31/12/2025

Fonte da imagem: Freepik

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