ENTREVISTA

Fábio Kagi – Gerente de Assuntos Regulatórios do Sindiveg – analisa cenário e perspectivas do setor de defensivos agrícolas no Brasil


 

 

Fábio Kagi – Gerente de Assuntos Regulatórios do Sindiveg, com formação em Agronomia pela Unesp e MBA pela FGV.

 

 

 

  1. Como evoluiu a Área Tratada Potencial (PAT) do mercado de defensivos entre 2024 e 2025, e quais culturas foram as principais responsáveis pelo crescimento ou retração observados?

A Área Potencial Tratada (PAT) com defensivos agrícolas cresceu 7,5% em 2025 em relação a 2024, ultrapassando 2,6 bilhões de hectares tratados. A métrica considera a quantidade de aplicações e o número de produtos utilizados, refletindo não apenas a área cultivada, mas também a intensidade de adoção das tecnologias de proteção de cultivos.

Entre as principais culturas, a soja manteve a liderança, concentrando 55% da área tratada no país. O milho apresentou aumento de participação, passando de 16% para 18%, movimento associado à expansão da área cultivada e à maior pressão de pragas, especialmente lagartas e insetos sugadores. O algodão permaneceu como o terceiro principal cultivo, com 7% da área tratada.

O desempenho também foi influenciado pela dinâmica do ano, marcado por um primeiro semestre mais desafiador, em razão de condições climáticas adversas e retração de preços, seguido de recuperação na segunda metade de 2025.

  1. Qual foi a variação do valor total de defensivos aplicados entre 2024 e 2025, e em que medida essa mudança foi influenciada por alterações de preços, mix de produtos ou expansão/redução da área tratada?

Em 2025, o valor de mercado dos defensivos agrícolas cresceu 0,7% em relação a 2024, em milhões de dólares. No mesmo período, o volume de produtos utilizados avançou 6,5%, enquanto a Área Potencial Tratada (PAT) aumentou 7,5%.

A diferença entre esses indicadores mostra que o crescimento do mercado em valor foi significativamente inferior à expansão do volume e da área tratada. Esse comportamento está relacionado, principalmente, à dinâmica de preços ao longo do período: o primeiro semestre foi marcado por retração, enquanto a segunda metade do ano apresentou recuperação. Dessa forma, o aumento do volume comercializado não se converteu na mesma proporção em crescimento do faturamento em dólares.

O mix de produtos também contribuiu para essa dinâmica, uma vez que a evolução do mercado ocorreu de forma distinta entre as diferentes categorias de defensivos e culturas. Entre os produtos de maior relevância, destaca-se o glifosato, que apresentou valorização na segunda metade do ano.

Assim, a expansão da PAT (+7,5%) e do volume utilizado (+6,5%) demonstra uma ampliação da utilização de defensivos agrícolas no campo em 2025. Entretanto, a retração de preços no início do ano e a composição do mix de produtos limitaram o avanço do mercado em valor, resultando em uma alta de apenas 0,7% frente a 2024.

  1. Como se comportou o volume total de defensivos aplicados em 2025 x 2024, e quais categorias de produtos (herbicidas, fungicidas, inseticidas ou tratamento de sementes) apresentaram as maiores variações?

O volume total de defensivos agrícolas utilizados em 2025 cresceu 6,5% em relação a 2024, acompanhando a expansão de 7,5% da Área Potencial Tratada (PAT), que superou 2,6 bilhões de hectares. A metodologia considera não apenas a área cultivada, mas também a quantidade de aplicações e de produtos utilizados, permitindo avaliar a intensidade do uso das tecnologias no campo.

Na composição do volume total consumido em 2025, os herbicidas representaram 46%, mantendo-se como a principal categoria, seguidos por inseticidas e fungicidas, com 26% cada. O levantamento também aponta diferenças importantes quando se considera a distribuição pela área tratada: os inseticidas responderam por 30% da cobertura, enquanto os herbicidas representaram 22% e os fungicidas, 18%. O tratamento de sementes correspondeu a 7% da área protegida, e a categoria “outros”, que reúne adjuvantes e reguladores de crescimento, respondeu pelos 22% restantes.

O cenário reflete a ampliação da utilização de defensivos nas lavouras brasileiras ao longo do ano, associada à expansão das áreas cultivadas e à maior pressão de pragas e doenças. Entre as culturas, a soja concentrou 55% da área tratada, seguida pelo milho, que avançou de 16% para 18%, e pelo algodão, com 7%.

Dessa forma, herbicidas, inseticidas e fungicidas concentraram a maior parte do volume utilizado em 2025, enquanto a distribuição por área tratada evidencia uma participação relativamente maior dos inseticidas, em função da intensidade dos manejos realizados nas culturas.

  1. Quais culturas concentraram a maior área tratada em 2025 e como essa participação se compara a 2024, indicando possíveis mudanças no perfil de consumo de defensivos do mercado?

Em 2025, a soja concentrou 55% da área tratada, mantendo-se como a principal cultura em utilização de tecnologias de proteção de cultivos. O milho respondeu por 18%, ante 16% no ano anterior, enquanto o algodão permaneceu em 7%.

A evolução do milho representa a principal mudança de um ciclo para o outro, associada à expansão de área e à pressão de pragas.

  1. Quais são as perspectivas em relação a área tratada, valor aplicado e volume de defensivos para o ano de 2026?

Os dados disponíveis para o primeiro semestre de 2026 indicam crescimento de 5% da PAT em relação ao mesmo período de 2025, com acréscimo de 59 milhões de hectares tratados, totalizando 1,2 bilhão de hectares nos seis primeiros meses. O volume de produtos utilizados também avançou 4,5% no período.

Esse comportamento está relacionado, entre outros fatores, à elevada pressão de pragas observada no campo, especialmente lagartas, percevejos e mosca-branca na soja. Os dados do semestre também refletem os manejos finais da safra de verão 2025/26 e a implantação e o desenvolvimento das culturas de segunda safra, principalmente algodão e milho safrinha.

No primeiro semestre, o milho representou 35% da área tratada, seguido por soja (29%) e algodão (14%). A evolução observada até o momento indica continuidade na demanda por tecnologias de proteção de cultivos, mas os materiais disponíveis não apresentam uma projeção fechada para o resultado de todo o ano de 2026, especialmente em relação ao valor aplicado.

  1. Como vocês avaliam a solicitação do MPT de proibição do uso de glifosato no Brasil?

O Sindiveg entende que não há justificativas técnicas que sustentem um eventual banimento do glifosato. O produto é atualmente o herbicida de maior utilização no Brasil e no mundo e exerce papel relevante no manejo de plantas daninhas e em práticas agrícolas como o plantio direto.

Uma eventual proibição poderia gerar impactos significativos para a agricultura, entre eles o aumento dos custos de produção, dificuldades adicionais no controle de plantas daninhas e possíveis efeitos sobre a competitividade do setor. No aspecto ambiental, também existe o risco de retrocesso em práticas como o plantio direto, que contribui para a conservação do solo e a redução das emissões de carbono.

O Sindiveg destaca ainda que todos os produtos utilizados na proteção de cultivos, incluindo o glifosato, passam por avaliações técnicas realizadas pelos órgãos competentes do governo, envolvendo os ministérios da Agricultura, do Meio Ambiente e da Saúde, por meio da Anvisa.  A entidade entende que o processo legalmente definido é a reanálise dos riscos, que deve observar a legislação vigente e estar fundamentado em informações científicas confiáveis e atualizadas.

Nesse sentido, a discussão central não está na existência de alternativas, mas na ausência de riscos plausíveis que justifiquem o direcionamento obrigatório para essas alternativas. A avaliação sobre a necessidade de eventual restrição deve ser conduzida pelas autoridades regulatórias, com base em critérios técnicos e científicos.

O Sindiveg manifesta preocupação com decisões que não estejam fundamentadas em critérios técnicos sólidos, uma vez que medidas dessa natureza podem gerar insegurança para o setor e impactos diretos sobre os produtores rurais.

 

Equipe Global Crop Protection, 20/08/2026

Fonte da imagem: Magnific

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