ENTREVISTA

Franklin Behlau – Gestor de Pesquisa Aplicada do Fundecitrus – avalia alternativas ao cobre e estratégias para o manejo de doenças na citricultura


Franklin Behlau – Gestor de Pesquisa Aplicada do Fundecitrus

 

  1. Para produtores que não encontram ou não conseguem arcar com os custos do oxicloreto de cobre, quais substitutos indiretos, como bioinsumos ou outras fontes de cobre mais concentradas e quais são as recomendações como alternativas seguras?

Primeiramente, vale ressaltar que o oxicloreto de cobre pertence ao grupo dos cobres fixos, que são compostos insolúveis utilizados há mais de cem anos na proteção das plantas contra doenças causadas por fungos e bactérias. Nesse grupo, existem outras formulações que podem ser utilizadas, como as à base de hidróxido de cobre, óxido cuproso e, mais recentemente, carbonato de cobre. Essas fontes podem proporcionar boa proteção, com maior persistência na superfície das folhas e menor risco de fitotoxicidade quando comparadas às formulações à base de cobre solúvel, como sulfato e nitrato de cobre.

É importante, porém, atentar-se à concentração e, principalmente, à quantidade de cobre metálico efetivamente aplicada. Esse valor pode variar bastante entre as diferentes formulações de cobre fixo e é um dos parâmetros que devem ser considerados na comparação entre produtos e na definição das doses necessárias para o manejo das doenças.
Assim, para produtores que não encontram oxicloreto de cobre ou buscam alternativas, existem outras fontes de cobre fixo que podem ser utilizadas, desde que devidamente registradas para a cultura e para o alvo que se pretende controlar e aplicadas de acordo com as recomendações do fabricante.
Os bioinsumos também vêm sendo estudados, mas não exatamente como substitutos diretos do cobre. O principal objetivo é avaliar seu potencial para complementar o manejo das doenças e, dessa forma, reduzir a quantidade total de cobre utilizada nos sistemas de produção.
Na citricultura, esse processo de racionalização do uso do cobre já vem ocorrendo há muitos anos, impulsionado pelo avanço das pesquisas realizadas pelo Fundecitrus, com a definição de doses, intervalos de aplicação, volumes de calda e períodos de proteção mais compatíveis com a necessidade de controle de cada doença. Nesse contexto, a integração de bioinsumos aos programas de manejo representa uma nova frente de pesquisa.
Os resultados que temos observado mostram que essa integração ainda é bastante desafiadora para doenças como cancro cítrico, pinta-preta, verrugose e melanose, que dependem do cobre como uma das principais ferramentas de controle. No caso da pinta-preta, o desafio é ainda maior, porque a eficiência dos bioinsumos, quando utilizados isoladamente, tende a ser menor. Além disso, a recente detecção de resistência parcial do fungo causador da doença a fungicidas à base de estrobilurinas aumentou a importância do cobre dentro das estratégias de manejo. Isso torna ainda mais difícil pensar em uma substituição completa do cobre por outras ferramentas.
Entre as doenças avaliadas, o cancro cítrico é uma das que apresentam maior potencial para o uso de bioinsumos à base de extratos botânicos ou microrganismos. Nossos estudos têm demonstrado reduções da doença na ordem de 30% a 40% com alguns desses produtos, quando utilizados isoladamente em condições de campo, em programas de aplicação com intervalos de 14 ou 21 dias.
Um ponto importante é que, quando o bioinsumo é utilizado em alternância com o cobre, os resultados tendem a ser melhores do que quando utilizado isoladamente, embora esse efeito ainda seja variável e dependa do produto e das condições de aplicação. Mesmo nesses programas, o nível de controle observado permanece inferior ao obtido com o uso do cobre isoladamente. Dessa forma, os resultados disponíveis até o momento indicam que os bioinsumos podem contribuir como ferramentas complementares dentro de um programa de manejo, mas ainda apresentam limitações importantes tanto para substituir o cobre de forma consistente quanto para reduzir sua utilização por meio de aplicações alternadas.
Outra linha de pesquisa envolve o uso do caulim no manejo do cancro cítrico. Trata-se de um silicato de alumínio não poluente, já utilizado na agricultura como protetor solar e que, na citricultura, também é empregado como repelente do psilídeo. No caso do cancro, seu efeito não está relacionado à ação direta sobre a bactéria. A formação de uma película sobre a superfície vegetal modifica as condições do microambiente e pode reduzir o período de molhamento das folhas, dificultando a ocorrência de infecções.
Embora sua eficiência seja inferior à do cobre, os resultados obtidos indicam que o caulim pode ser incorporado como uma ferramenta adicional aos programas de proteção. Isso é especialmente interessante para os produtores que já utilizam o produto contra o psilídeo, pois uma mesma aplicação pode proporcionar benefícios complementares no manejo fitossanitário. Dependendo das condições e da estratégia adotada, essa contribuição pode permitir maior espaçamento entre aplicações de cobre e ajudar a reduzir seu uso ao longo do ciclo.
Um dos principais desafios para avançar nessa direção é desenvolver formulações capazes de manter, entre uma aplicação e outra, um nível de proteção suficientemente alto e persistente na planta. No caso dos produtos de origem vegetal, isso pode envolver mecanismos de liberação mais lenta de metabólitos ou moléculas com ação pesticida. No caso dos produtos microbiológicos, o desafio é selecionar microrganismos capazes de colonizar a superfície da planta e prolongar sua ação ao longo do tempo.
Essa é uma frente de grande importância para a agricultura. O objetivo não é simplesmente substituir uma tecnologia por outra, mas desenvolver sistemas de manejo mais eficientes e sustentáveis, nos quais diferentes ferramentas possam atuar de forma complementar. Para isso, é fundamental que a pesquisa continue avançando na avaliação e no desenvolvimento dessas tecnologias, buscando soluções que permitam reduzir o uso de cobre sem comprometer a eficiência e a segurança do controle das doenças.

2. Como a rotação de ingredientes ativos e a integração de diferentes métodos de controle podem contribuir para reduzir a dependência do oxicloreto de cobre?

A utilização de alternativas e a rotação de ingredientes ativos dependem bastante da doença que está sendo manejada. No caso de doenças fúngicas, como a pinta-preta, existem outros fungicidas, incluindo produtos do grupo das estrobilurinas e dos triazóis, que podem compor os programas de manejo em complementação ao cobre. Além disso, novos fungicidas e bioinsumos continuam sendo estudados e poderão ampliar as opções disponíveis no futuro.
No caso do cancro cítrico, o cenário é um pouco diferente, porque as alternativas ao cobre ainda são mais limitadas. Enquanto novas formulações e bioinsumos com maior eficiência continuam sendo desenvolvidos e avaliados, o foco principal está na racionalização do uso do próprio cobre. Isso envolve ajustar os intervalos e os períodos de aplicação, o volume de calda e o momento das pulverizações de acordo com as condições que realmente favorecem a ocorrência da doença.
No caso do cancro cítrico, isso significa considerar principalmente a ocorrência de chuvas, as condições de temperatura e a presença de tecidos jovens suscetíveis, como brotações e frutos em desenvolvimento. A combinação desses fatores determina os períodos de maior risco de infecção e permite direcionar melhor as aplicações.
Vale sempre lembrar, porém, que o manejo das doenças não depende apenas de estratégias químicas ou biológicas. Existem outras medidas que podem contribuir de forma importante para reduzir a ocorrência e a severidade das doenças.
No caso do cancro cítrico, por exemplo, a utilização de quebra-ventos arbóreos ao redor dos pomares reduz a velocidade e a incidência do vento e, consequentemente, a disseminação da bactéria. Com isso, é possível reduzir a ocorrência de novas infecções e a severidade da doença, com reflexos importantes, principalmente na qualidade da casca dos frutos destinados ao mercado de fruta fresca.
Para a pinta-preta, um bom exemplo é a utilização da chamada roçada ecológica, que consiste em manejar a vegetação das entrelinhas de cultivo de forma a direcioná-la para baixo da copa das plantas, cobrindo as folhas em decomposição. Essas folhas são uma importante fonte de inóculo, pois servem de substrato para a multiplicação do fungo e a produção de estruturas reprodutivas responsáveis pela disseminação da doença. A poda e a retirada, quando viáveis, de ramos secos no interior da copa também podem contribuir para reduzir fontes de inóculo.
Dessa forma, a redução da dependência do oxicloreto de cobre não passa apenas pela substituição do produto. Ela deve envolver a integração de diferentes estratégias de manejo, combinando controle químico, biológico e cultural e, principalmente, utilizando cada ferramenta de maneira mais precisa e racional, de acordo com a necessidade de cada doença.

3. Frente à instabilidade de mercado para esses dois insumos, quais práticas culturais de Manejo Integrado de Pragas e Doenças (MIP/MID) o órgão tem promovido para reduzir estruturalmente a dependência do oxicloreto de cobre a longo prazo?

O aumento do preço do cobre representa, de fato, um desafio adicional para a cadeia produtiva da citricultura. No entanto, sua substituição não é simples, dada a importância que esse insumo ainda tem no controle de diferentes doenças.
O Fundecitrus trabalha há mais de dez anos na racionalização do uso do cobre. Esse trabalho já permitiu reduzir significativamente as quantidades aplicadas nos pomares, mantendo a eficiência do controle. Estudos realizados pelo Fundecitrus indicam que essa racionalização pode representar uma economia para o setor da ordem de mais de R$ 230 milhões por ano (Behlau et al., 2024). https://www.scielo.br/j/sa/a/SDtsvPn65LjdRxZ8bYs5kTN/?lang=en
De certa forma, portanto, o setor já vem se preparando para a necessidade de reduzir o uso do cobre, tanto pelos possíveis impactos econômicos decorrentes de seu amplo uso em diferentes segmentos da economia quanto pelos possíveis efeitos negativos que aplicações excessivas e prolongadas podem causar no pomar. Esse cenário reforça a importância de buscar um uso cada vez mais racional e sustentável do insumo.
Nesse contexto, continuamos orientando os produtores a ajustar os programas de controle às características de cada pomar, considerando dose, número e intervalo entre aplicações, idade das plantas, tamanho e volume de copa e os períodos de maior risco de ocorrência das doenças. Esse planejamento permite reduzir significativamente a quantidade de cobre metálico aplicada. Em determinadas situações, é possível passar de 18 a 20 kg de cobre metálico por hectare ao ano para cerca de 8 kg, podendo chegar a 4 ou 5 kg em condições específicas, sem comprometer a proteção quando as aplicações são adequadamente planejadas.
Paralelamente, diversas pesquisas vêm sendo conduzidas em parceria com instituições de pesquisa e empresas do setor para viabilizar o uso de bioinsumos no controle das doenças. Essas tecnologias têm potencial para complementar as ferramentas disponíveis e contribuir para uma redução ainda maior do uso de cobre. No entanto, ainda é necessário avançar para que possam ser incorporadas de forma mais consistente aos programas de controle.
Um dos principais desafios, conforme mencionado anteriormente, está no desenvolvimento de formulações que proporcionem maior persistência e estabilidade na planta. Isso pode envolver sistemas de liberação mais lenta de compostos de interesse ou microrganismos mais adaptados à superfície das plantas, capazes de colonizar e permanecer na filosfera por mais tempo e, assim, prolongar o efeito sobre os patógenos.
Além dos produtos biológicos à base de extratos botânicos ou microrganismos, outra alternativa estudada para o manejo do cancro cítrico é o uso de caulim, como comentado anteriormente. Embora não seja um produto direcionado especificamente ao controle do cancro cítrico, o caulim já é utilizado no manejo do psilídeo, vetor do greening. Nesses casos, seu uso pode trazer um benefício adicional no manejo do cancro, contribuindo, em determinadas situações, para aumentar o intervalo entre as aplicações de cobre e, consequentemente, reduzir a quantidade total de cobre utilizada anualmente nos sistemas de produção.
Dessa forma, a estratégia de longo prazo não é simplesmente substituir o cobre por outro insumo, mas combinar seu uso racional com práticas culturais, controle químico e novas tecnologias biológicas ou não. É essa integração que permitirá reduzir de forma estrutural e sustentável a dependência do cobre na citricultura.

4. Como os órgãos de pesquisa e a indústria de inovação têm se movimentado para desenvolver novas moléculas, nano formulados ou bioinsumos que possam substituir progressivamente a dependência de ativos multissítios tradicionais, como o cobre?

O Fundecitrus não é uma empresa com fins comerciais, mas uma instituição de pesquisa, desenvolvimento tecnológico e apoio ao setor citrícola. Por isso, seu papel é bastante diversificado e está diretamente ligado às necessidades dos produtores e da cadeia produtiva.
Uma das frentes é avaliar e auxiliar as empresas no correto posicionamento de produtos para diferentes alvos, gerando informações sobre sua efetiva contribuição para o controle de pragas e doenças e sobre as melhores condições de uso no campo. Outra envolve o codesenvolvimento de novas soluções, incluindo moléculas, bioinsumos e microrganismos com potencial para se transformar em produtos comerciais.
Esse trabalho pode começar na prospecção de novos agentes ou isolados e avançar por diferentes etapas, desde estudos em laboratório até avaliações em campo. Também inclui a avaliação e o desenvolvimento de formulações e protótipos que possam aumentar a eficiência, a estabilidade e a viabilidade de uso dessas soluções.
Nesse processo, o Fundecitrus também atua em conjunto com as empresas que desenvolvem e comercializam esses produtos para identificar os principais gargalos técnicos e práticos que dificultam sua adoção. A partir dos resultados de pesquisa e das demandas observadas no campo, buscamos ajudar a definir quais aspectos precisam ser aprimorados, seja na formulação, no posicionamento ou na própria estratégia de utilização.
Essa interação permite aproximar a inovação dos problemas que efetivamente encontramos nos pomares e direcionar a pesquisa para soluções que tenham maior potencial de aplicação prática.
Para isso, é fundamental compreender profundamente cada praga ou doença, incluindo o ciclo do patógeno, sua interação com a planta e com o ambiente e os pontos em que uma determinada tecnologia pode interferir nesse processo. Esse conhecimento é essencial para transformar um agente promissor em uma ferramenta de controle eficiente, sustentável e viável em escala comercial.
Portanto, o papel do Fundecitrus vai além de pesquisar e avaliar novas soluções. A instituição também atua como uma ponte entre a ciência, as empresas e o setor produtivo, ajudando a identificar desafios, orientar o desenvolvimento e criar condições para que novas tecnologias cheguem ao campo e contribuam efetivamente para uma citricultura mais eficiente e sustentável.

 

Equipe Global Crop Protection, 14/09/2026

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