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Estudo confirma ecótipo migratório da lagarta-do-cartucho e abre novas estratégias de controle

Pesquisadores confirmaram a existência de um ecótipo migratório da lagarta-do-cartucho (Spodoptera frugiperda). Seu estudo analisou características morfológicas e de voo de populações coletadas em campo e comparou os dados com linhagens criadas em laboratório. As conclusões revelam diferenciação estável entre indivíduos migratórios e não migratórios.
Morfologia adaptada ao voo
As populações migratórias capturadas em regiões de Yunnan, na China, apresentaram corpos mais longos e asas maiores que as linhagens laboratoriais. Os indivíduos migratórios mostraram maior capacidade de voo, tanto em distância quanto em tempo.
Com base nesses dados, os autores desenvolveram um modelo de identificação do ecótipo migratório a partir de dois índices morfológicos: carga alar corrigida (WL) e relação de aspecto da asa anterior (FA). Esses parâmetros, ao serem aplicados em campo, permitiram identificar que cerca de 70% dos indivíduos coletados por armadilhas com feromônio pertencem ao ecótipo migratório.
Ambiente controlado
Para verificar se as características migratórias são herdadas ou induzidas pelo ambiente, os pesquisadores mantiveram indivíduos migratórios sob condições laboratoriais por três gerações.
Na primeira geração (F1), os insetos mantiveram os traços morfológicos e desempenho de voo semelhantes aos coletados no campo. Na segunda geração (F2), houve redução significativa desses atributos. Já na terceira geração (F3), todos os parâmetros se igualaram aos da linhagem laboratorial original.
O resultado indica que os traços migratórios são predominantemente moldados pelo ambiente, não por fatores genéticos fixos.
Corredor de migração
A província de Yunnan possui papel estratégico na dinâmica migratória da praga. As correntes de monções da primavera e verão trazem indivíduos de países vizinhos para o sul da China, onde se reproduzem e iniciam novas migrações para o norte. No outono, os ventos favorecem o retorno desses insetos para o sudeste asiático. A diversidade de cultivos, especialmente o milho, e a possibilidade de múltiplas safras por ano criam habitat ideal para a reprodução contínua do inseto.
As coletas foram realizadas em dois pontos distintos de Yunnan: Pu’er (sul) e Kunming (nordeste). Indivíduos capturados em Kunming apresentaram características morfológicas ainda mais desenvolvidas, o que sugere influência de fatores locais na expressão dos traços migratórios.
Ferramenta para manejo
A identificação de um ecótipo migratório tem impacto direto na gestão agrícola. Por meio da medição de apenas dois parâmetros — WL e FA — é possível classificar indivíduos como migratórios ou não, sem necessidade de dissecação ou testes destrutivos. O modelo logístico aplicado obteve 92,9% de acurácia na previsão do ecótipo, com apenas duas variáveis, o que o torna viável para uso em campo com ferramentas automatizadas.
Essa metodologia pode ser integrada a sistemas de alerta precoce e controle regional da praga, contribuindo para reduzir sua população nos pontos de origem e evitar surtos em áreas agrícolas distantes. A identificação rápida e precisa do ecótipo migratório também possibilita o uso direcionado de armadilhas luminosas, feromônios e culturas geneticamente modificadas.
Fonte: Revista Cultivar, publicado em 14/01/2025
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