NOTÍCIAS
Nova pesquisa revela aumento de plantas daninhas resistentes ao glifosato no Brasil

Uma nova pesquisa realizada por cientistas da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) identificou diversas espécies de plantas daninhas com resistência ao glifosato, incluindo o primeiro relato mundial de resistência em Solanum americanum .
Os resultados, gerados pelo Laboratório de Produtos Naturais da universidade, destacam a crescente complexidade do manejo de plantas daninhas na agricultura brasileira, particularmente em sistemas que dependem fortemente de estratégias de controle à base de glifosato.
O estudo teve origem em relatos de campo de citricultores que observaram falhas recorrentes no controle de ervas daninhas após a aplicação de herbicidas. Os pesquisadores coletaram sementes de plantas que sobreviveram a doses padrão aplicadas em pomares de laranja e limão-taiti e realizaram ensaios controlados em laboratório para avaliar sua resposta ao glifosato.
Segundo Gabriel da Silva Amaral, pesquisador principal do estudo, os resultados confirmaram que Solanum americanum — espécie até então não associada à resistência a herbicidas — desenvolveu a capacidade de resistir a aplicações de glifosato. A descoberta amplia a lista de plantas daninhas resistentes que afetam os sistemas agrícolas, tanto no Brasil quanto no mundo.
O glifosato continua sendo o herbicida mais utilizado no Brasil e um dos mais amplamente aplicados no mundo. No entanto, o estudo reforça que a resistência não é um fenômeno isolado, mas sim o resultado de um processo evolutivo gradual impulsionado pelo uso repetido do mesmo modo de ação.
Quando um herbicida é aplicado continuamente, nem todas as plantas respondem da mesma maneira. Indivíduos com menor sensibilidade natural sobrevivem e se reproduzem, alterando progressivamente a população em direção à resistência. Com o tempo, essas características tornam-se dominantes, reduzindo a eficácia geral do produto.
Além de Solanum americanum , o estudo confirmou a resistência em diversas espécies problemáticas já conhecidas, incluindo Conyza bonariensis , Digitaria insularis e Chloris elata — todas já reconhecidas como grandes desafios nos sistemas de cultivo devido à sua menor suscetibilidade ao glifosato.
Outras espécies, como Amaranthus hybridus e Tridax procumbens , permaneceram suscetíveis nas condições testadas. No entanto, Bidens pilosa apresentou comportamentos variáveis, com certas populações — particularmente aquelas coletadas em Olímpia — exibindo mortalidade reduzida, indicando sinais precoces de desenvolvimento de resistência.
Para validar as descobertas, os pesquisadores realizaram ensaios bioquímicos direcionados à via metabólica inibida pelo glifosato, conhecida como via do chiquimato. O herbicida age bloqueando essa via, que é essencial para a síntese de aminoácidos necessários ao crescimento das plantas.
Em plantas suscetíveis, o glifosato causa um acúmulo significativo de ácido chiquímico, indicando a interrupção efetiva do metabolismo. Em contraste, as populações resistentes apresentaram níveis de acúmulo muito menores, demonstrando que a via metabólica permaneceu parcialmente ativa, apesar da aplicação do herbicida. Isso confirma que a sobrevivência observada não é incidental, mas sim resultado de adaptações fisiológicas que reduzem a eficácia do herbicida.
Além dos desafios no controle de ervas daninhas, o estudo também aponta para implicações agronômicas mais amplas. Aplicações repetidas de glifosato podem afetar microrganismos benéficos do solo, incluindo bactérias e fungos envolvidos na ciclagem de nutrientes, impactando potencialmente a saúde do solo e a produtividade das culturas a longo prazo.
Outra preocupação crítica é a presença simultânea de múltiplas espécies resistentes no mesmo campo. Nas regiões produtoras de citros pesquisadas — incluindo Araras, Cordeirópolis, Mogi-Mirim e Olímpia — os pesquisadores identificaram áreas onde coexistiam de duas a cinco espécies resistentes. Essa sobreposição complica as estratégias de manejo, pois medidas de controle eficazes contra uma espécie podem não funcionar contra outras.
Os resultados destacam a necessidade urgente de abordagens mais diversificadas e integradas para o manejo de plantas daninhas, reduzindo assim a dependência de um único modo de ação de herbicidas. Para os produtores, isso implica combinar estratégias químicas, culturais e mecânicas para manter a eficácia do controle e retardar o desenvolvimento de resistência.
A pesquisa foi conduzida no âmbito do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Controle Biorracional de Insetos Pragas e Fitopatógenos (INCT-CBIP), com apoio de agências de financiamento brasileiras, incluindo Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP).
À medida que a resistência continua a expandir-se entre espécies e regiões, o estudo reforça um desafio mais amplo da indústria: manter a eficácia dos herbicidas existentes, adaptando-se simultaneamente à dinâmica cada vez mais complexa das ervas daninhas nos sistemas agrícolas modernos.
Fonte: Leonardo Gottems – Agropages, publicado em 25/03/2026
Fonte da imagem: Freepik



