NOVAS TECNOLOGIAS

Startup identifica plantas daninhas por meio de satélites


Radares e sensores embarcados em satélite ganharam uma nova função neste ano: identificar a presença de plantas daninhas em meio aos plantios florestais de eucaliptos. A tecnologia desenvolvida pela IDGeo, agtech de inteligência em dados geográficos parceira do Agtech Garage, está sendo usada com sucesso em 17 mil hectares de florestas de primeiro ano na Bahia da Bracell, uma das líderes globais na produção de celulose solúvel, e em 10 mil hectares no Maranhão da Suzano, maior produtora global de celulose de eucalipto.

O plano para 2023 da startup fundada em 2017 visando o monitoramento por satélite de lavouras de cana-de-açúcar é aumentar seis vezes o faturamento com o setor florestal, chegando a pelo menos 100 mil hectares monitorados. Desde 2019, a IDGeo passou a adaptar os algoritmos desenvolvidos para a cana para testar a tecnologia nos plantios florestais comerciais, onde a matocompetição é um dos principais problemas.

O biólogo e especialista em ecologia aplicada Ronan Campos, um dos fundadores e CEO da IDGeo, diz em entrevista à Globo Rural que o foco do negócio é fazer o monitoramento de forma remota com acurácia que passa de 90%, mesmo com a presença de nuvens. A startup combina radares e sensores multiespectrais embarcados em satélites que emitem ondas para a terra que atravessam as nuvens, interagem com o solo e voltam, gerando as imagens que vão ser “traduzidas” e repassadas às empresas para a aplicação direta no campo.

O sistema, segundo o CEO, é mais eficiente do que o monitoramento por drones. “Os dados de radar podem oferecer um diagnóstico frequente do cultivo, independentemente das condições climáticas. Isso garante maior competitividade às empresas por não depender de drones, que é uma tecnologia mais cara em áreas mais extensas. Além disso, o sistema é mais eficiente por indicar desde o início o surgimento de daninhas no campo sem a necessidade de visita ao local.”

O trabalho inovador da startup, que recebeu seu primeiro aporte de R$ 3,5 milhões da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) e mantém parcerias com várias universidades, não inclui a identificação do tipo de planta daninha que está afetando as áreas de plantio. Nos primeiros seis meses do contrato, o foco é identificar onde há plantas daninhas. Nos outros seis meses, a tecnologia pode detectar também ataques de formiga, morte prematura de plantas e até déficit hídrico.

Relatórios e melhoria de qualidade

Leonardo Antero de Araújo Martins, analista de Eficiência Florestal e responsável pelo setor de inovações da Bracell, primeira cliente da IDGeo, conta que os testes começaram em 2020 depois que ele conheceu a tecnologia através da Universidade Federal de São Carlos, onde se graduou em engenharia florestal. O contrato foi fechado neste ano e já resultou na melhoria da qualidade da lavoura.

Segundo ele, a companhia recebe a cada 15 dias os relatórios de detecção de daninhas gerados pela IDGeo e consegue uma resposta muito mais rápida para o controle. Com o aplicativo desenvolvido pela startup que traz os dados e o histórico da área, os funcionários da Bracell vão a campo identificar qual o tipo e a severidade da infestação para definir como será o controle.

Antes, a observação das daninhas era feita aleatoriamente pelas equipes que tinham atividades no campo, mas elas não conseguiam visitar todas as áreas com periodicidade alta e também não chegavam ao centro do talhão ou às partes mais altas e mais baixas. Com isso, a descoberta de uma infestação de plantas daninhas poderia ser bem tardia e resultar em muitos prejuízos.

“Com o trabalho em parceria ganha-ganha com a IDGeo, temos agora um menor número de plantas mortas, maior controle das falhas de aplicação de herbicidas e um plantio mais homogêneo”, diz o analista, que não estima quanto a Bracell economiza com o uso da tecnologia.

Ronan Campos, no entanto, tem uma conta. Segundo ele, é possível reduzir em até 23% a perda de produtividade, com ganho de R$ 1.248,00 por hectare por ciclo. O executivo explica que, como as empresas não passam informações internas de custo, a IDGeo contou com a ajuda de especialistas que trabalham no setor florestal para fazer uma estimativa baseada no custo da aplicação mecanizada de herbicidas e no percentual de áreas infestadas.

A tecnologia das imagens de radares é usada atualmente apenas em áreas de plantios novos, antes de as copas dos eucaliptos se fecharem. Mas a agtech já desenvolveu soluções para aplicação em plantios florestais de mais de um ano visando identificar danos na lavoura, como pragas, falhas de plantio, mortalidade das plantas, manchas de solo, etc. A Bracell chegou a testar essa tecnologia de danos, mas, segundo Martins, preferiu priorizar a matocompetição no primeiro momento.

Campos destaca que, além da rastreabilidade no processamento, um ponto decisivo para a startup entrar e crescer no mercado florestal foi o fato de não depender de dados compartilhados pelas indústrias, que têm um nível de governança e segurança bem alto.

O custo do serviço varia de R$ 9,00 a R$ 100,00 por hectare/ano monitorado, de acordo com a extensão da área, especificidade da lavoura e demandas dos clientes.

Operação em lavouras de grãos

No setor de cana, a IDGeo monitora atualmente quase 300 mil hectares, sendo 200 mil hectares em unidades da Adecoagro, 25 mil na Argentina e o restante de outras usinas brasileiras. Também trabalha no monitoramento de irrigação em plantios de manga no Vale do São Francisco.

A empresa não divulga dados de faturamento, mas o CEO diz que a operação ainda é negativa porque o investimento em P&D é muito alto. A expectativa é começar a chegar no equilíbrio no próximo ano, com um aumento de três vezes no faturamento total. Neste ano, o crescimento foi de 75%, recuperando parte das perdas de 2020 e 2021. “Os anos de pandemia foram muito ruins pelo nosso modelo de negócios ser muito consultivo e precisar estar junto ao cliente.”

Na última rodada de investimentos, em outubro deste ano, a agtech captou R$ 1,5 milhão, sendo R$ 1,2 milhão da MT Grãos, de Nova Mutum (MT), empresa interessada no desenvolvimento da tecnologia de monitoramento por radares para o setor de grãos. “Entrar nesse mercado que tem a maior área plantada do país é o nosso próximo desafio”, finaliza Campos.

Fonte: Globo Rural, 23/12/2022.

Fonte da imagem: Pixabay

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