ENTREVISTA
Alessandro Gazzinelli – Diretor de Field Marketing da BASF – analisa o cenário do mercado de defensivos agrícolas

Alessandro Gazzinelli – Diretor de Field Marketing da BASF Soluções para Agricultura – Engenheiro agrônomo com mais de 20 anos de experiência no agronegócio brasileiro, combinando liderança comercial, marketing estratégico e desenvolvimento de mercado em posições nacionais e regionais. Ao longo da sua carreira liderou crescimento de negócios, expansão de mercado e geração de demanda em diferentes realidades agrícolas do país.
- As safras 24/25 e 25/26 foram marcadas por um cenário dinâmico e desafiador para o agronegócio brasileiro. Os produtores tiveram que lidar com a volatilidade dos preços, problemas de fornecimento para alguns produtos, condições climáticas adversas e a necessidade de adaptar suas práticas para atender às demandas. Para a safra 26/27, quais são as expectativas para o fornecimento dos produtos da BASF?
As safras recentes foram, de fato, marcadas por um cenário mais desafiador para o agronegócio brasileiro. A volatilidade dos custos de produção, oscilações cambiais, impactos climáticos, questões relacionadas a crédito e momentos pontuais de ajuste na cadeia de suprimentos, exigiram dos produtores uma gestão cada vez mais estratégica e resiliente. Para a safra 2026/27, a expectativa segue sendo de um ambiente que exige atenção, planejamento e capacidade de adaptação, características inerentes a um setor cíclico como é a agricultura.
Nesse contexto, mantemos uma postura de otimismo responsável e resiliência, apoiada em uma estratégia sólida e de longo prazo. Seguimos focados em alcançar um desempenho acima do mercado, preservando a saúde financeira e a rentabilidade dos negócios, tanto da BASF quanto de nossos clientes e parceiros. Mais do que fornecedora de insumos, atuamos como um parceiro estratégico do agricultor, com um olhar atento às suas necessidades reais e aos desafios enfrentados no campo, oferecendo soluções que façam sentido para a realidade de cada região e cultura.
Olhando para a próxima safra, a expectativa é de continuidade no fornecimento, sustentada por um portfólio robusto diversificado e constantemente atualizado. Seguimos investindo no desenvolvimento de soluções integradas que combinam genética, biotecnologia, tecnologias químicas, biológicas e digitais, com foco em aumentar a eficiência produtiva, contribuir para a sustentabilidade das lavouras e oferecer maior previsibilidade ao produtor em um ambiente cada vez mais complexo.
2. Diante do atual cenário de tensões geopolíticas envolvendo Estados Unidos, Irã e Israel, como a BASF avalia os impactos do aumento dos preços do gás natural na Europa sobre seus custos de produção, principalmente no segmento de defensivos agrícolas? Além disso, A empresa já tem planos de contingência ou ajustes na cadeia de suprimentos para mitigar impactos no fornecimento global?
Estamos monitorando de perto a situação do mercado e buscaremos um equilíbrio sensato entre a rentabilidade de todos os elos da cadeia produtiva, especialmente diante do aumento dos custos de produção. A gestão de preços, juntamente com a volatilidade das moedas locais continuam sendo áreas foco.
3. Quais são os principais direcionadores e investimentos atuais da BASF em pesquisa e desenvolvimento de novas soluções agrícolas?
Nós temos uma atuação fortemente orientada à pesquisa e desenvolvimento, com foco em levar soluções que respondam às necessidades reais do campo. Esse compromisso se reflete em um investimento global anual de aproximadamente 1 bilhão de euros em P&D na divisão de Soluções para Agricultura, direcionado ao desenvolvimento de tecnologias com aplicação prática nos sistemas produtivos.
Os principais direcionadores desses investimentos estão ligados ao avanço da produtividade, à otimização do manejo e à sustentabilidade das lavouras. Esse trabalho acontece de forma integrada em diferentes frentes, como biotecnologia, desenvolvimento de novas moléculas, formulações, traits, sementes e ferramentas digitais, que passam a ser pensadas de maneira mais conectada, acompanhando a complexidade crescente do campo.
Nos últimos anos, esse esforço também tem sido ampliado a partir de uma abordagem mais orientada por sistemas produtivos, com atenção especial aos sistemas de soja e hortifruti. O objetivo é entender melhor as particularidades de cada cultivo e ambiente de produção, conectando soluções de forma mais aderente às necessidades específicas de cada realidade agrícola.
Dentro desse contexto, um dos movimentos recentes foi o desenvolvimento da NRS, nova tecnologia de soja voltada ao controle dos principais nematoides da cultura, como Pratylenchus brachyurus e Heterodera glycines, pragas que geram impactos significativos à produtividade no Brasil. A solução amplia as alternativas disponíveis ao produtor ao atuar diretamente na planta, complementando as estratégias de manejo já utilizadas.
Como desdobramento dessa estratégia de longo prazo, prevemos cerca de 30 lançamentos até 2035 no Brasil, o que reforça nosso pipeline de inovação e a capacidade de entregar valor para toda a cadeia agrícola. Essas soluções fazem parte de um processo contínuo de evolução tecnológica, com foco em apoiar o produtor na tomada de decisão, na gestão de riscos e na busca por maior eficiência produtiva em sistemas agrícolas cada vez mais desafiadores no país.
4. Qual é o papel dos bioinsumos na estratégia de proteção de cultivos da BASF e quais vantagens competitivas eles oferecem frente aos defensivos químicos? A aquisição da Agbitech contribui para essa estratégia?
Os bioinsumos fazem parte de uma estratégia mais ampla de proteção de cultivos baseados no manejo integrado de pragas. A leitura é de que soluções biológicas e químicas se complementam, ampliando o conjunto de ferramentas disponíveis ao produtor e permitindo estratégias de manejo mais eficientes e adaptadas às diferentes realidades de campo.
Entre as principais vantagens do uso de bionsumos está a diversificação de modos de ação, um ponto central para o manejo de resistência, além de maior flexibilidade operacional dos sistemas produtivos. Essas soluções também dialogam com uma demanda crescente por práticas mais sustentáveis, sem a proposta de substituir os defensivos químicos, mas de reforçar seu desempenho quando usadas de forma integrada.
Esse entendimento tem orientado os movimentos recentes da companhia quando olhamos para biosoluções. A aquisição 100% concluída da AgBiTech se insere nesse contexto ao fortalecer a nossa atuação em soluções biológicas voltadas ao controle de lepdopteros (lagartas e mariposas), um componente relevante dentro das estratégias de manejo integrado em diversas culturas.
Com essa incorporação, nós ampliamos o portfólio de ferramentas disponíveis ao produtor e avança na construção de soluções cada vez mais integradas para diferentes sistemas produtivos. O movimento também reforça a atuação da companhia em mercados estratégicos como o Brasil, um dos países com maior crescimento na adoção de bioinsumos. O foco é oferecer alternativas complementares que ajudem o produtor a lidar com sistemas agrícolas cada vez mais complexos, combinando eficiência agronômica, sustentabilidade e viabilidade operacional.
5. Na agricultura moderna o uso de ferramentas digitais tem sido uma importante aliada no campo, auxiliando os agricultores a tomar decisões mais conscientes. Quais as inovações tecnológicas que a BASF possui atualmente disponíveis para o produtor nacional? E de que forma elas podem auxiliar no aumento da produtividade?
As ferramentas digitais fazem parte de uma estratégia mais ampla de apoio à tomada de decisão no campo, em um contexto de agricultura cada vez mais orientada por dados. Esse avanço acontece principalmente por meio do xarvio®, plataforma de agricultura digital que reúne informações agronômicas e operacionais para apoiar o produtor ao longo de todo o ciclo da cultura.
A tecnologia utiliza dados de satélite, históricos de produtividade e inteligência artificial para gerar recomendações agronômicas personalizadas para cada área. Isso permite um monitoramento mais preciso das lavouras e uma atuação preventiva, contribuindo para o uso mais eficiente de insumos, uma melhor gestão do solo e da cultura, além de ganhos consistentes em produtividade. A plataforma também viabiliza aplicações em taxa variável, ajustadas às necessidades específicas de cada talhão, com impacto direto na eficiência operacional. No Brasil, esse uso já se reflete em escala relevante no campo. Mais de 11 milhões de hectares estão cadastrados no xarvio®, e estudos mostram ganhos concretos de produtividade, como no caso da soja, com incremento médio de 3,1 sacas por hectare em áreas onde foram adotadas práticas como a semeadura em taxa variável. Enquanto no cultivo de algodão o incremento médio foi de 10,5 @/ha, com adoção de semeadura em taxa variável.
Dentro de um conjunto de ferramentas disponíveis na plataforma, o Mapeamento Digital de Plantas Daninhas é um exemplo de como o os dados passam a apoiar decisões cada vez mais específicas para o manejo. A funcionalidade utiliza imagens captadas por drones para direcionar aplicações de forma localizada, permitindo uma economia média superior a 60% no uso de defensivos, além de redução no consumo de água e diesel em culturas como soja e algodão. Trata-se de uma aplicação prática da digitalização no campo, que contribui para maior eficiência operacional, produtividade e sustentabilidade.
Esse tipo de aplicação está alinhado à nossa estratégia de integrar inovação digital às práticas agronômicas, apoiando o produtor na busca por maior eficiência produtiva, uso mais racional de recursos e evolução contínua dos sistemas agrícolas.
6. A BASF possui produtos de referência no segmento florestal, como Tuit Florestal e Blitz (ambos à base de fipronil) e Chopper Florestal (imazapir). Quais são as perspectivas de mercado e uso desses produtos nas próximas safras? Além disso, dentro do portfólio Escudo Verde, que inclui Belyan, Blavity e Keyra, quais são as principais diferenças desses fungicidas em relação aos demais do mercado?
Temos uma atuação consolidada no segmento florestal, baseada em soluções desenvolvidas para sistemas produtivos que exigem planejamento de longo prazo, previsibilidade e eficiência operacional. Para as próximas safras, a expectativa é de continuidade na adoção dessas tecnologias, acompanhando a evolução de práticas de manejo e a busca por maior estabilidade nos resultados ao longo do ciclo florestal.
Esse mercado tem uma dinâmica própria, fortemente conectada aos ciclos de produção, às decisões técnicas e ao uso criterioso das ferramentas disponíveis. Por isso, nossa atuação está menos associada a movimentos de curto prazo e mais à consistência das estratégias adotadas, sempre em linha com as exigências regulatórias e com as boas práticas agronômicas aplicadas ao setor.
No caso do portfólio Escudo Verde, trata-se de um programa integrado de manejo de doenças que combina diferentes soluções desenvolvidas para atuar de forma complementar ao longo do ciclo da cultura da soja. O diferencial dessa abordagem está na construção de uma estratégia de manejo mais planejada, que considera o momento de aplicação, a diversidade de modos de ação e a pressão de doenças ao longo da safra. Estudos e resultados observados em campo no Brasil indicam que esse tipo de estratégia contribui para maior eficiência no controle e para maior produtividade.
De forma geral, seguimos comprometidos em oferecer um portfólio robusto e integrado, tanto no segmento florestal quanto em grandes culturas, orientado por estratégias de manejo, olhando para todo o sistema produtivo, e não por soluções isoladas. Nosso foco é apoiar o produtor na tomada de decisão e contribuir para sistemas produtivos mais eficientes, previsíveis, sustentáveis e adaptados aos desafios do campo atuais.
7. Espaço aberto para outro comentário ou sugestão pertinente sobre a temática
Quando olhamos para os desafios atuais da agricultura, fica claro que não existe mais uma solução única que resolva tudo. O produtor precisa de ferramentas que conversem entre si e façam sentido dentro da realidade de cada sistema produtivo, seja em soja, hortifrúti ou em outras culturas.
É nesse ponto que buscamos atuar, conectando diferentes tecnologias e abordagens para apoiar decisões mais bem informadas ao longo de todo o ciclo produtivo. A proposta é ajudar o produtor a ganhar eficiência no manejo, reduzir riscos e extrair melhor resultado das áreas, sempre considerando as particularidades de cada região e safra.
Além da tecnologia em si, entendemos que viabilizar o acesso a essas soluções também faz parte do processo. Por isso, trabalhamos com alternativas financeiras e de crédito que ajudem o produtor a planejar melhor seus investimentos e colocar as estratégias em prática no campo, do planejamento à execução.
Equipe Global Crop Protection, 03/06/2026



