COLUNISTAS

Safra de cana-de-açúcar começando muito atrasada


Na cana, a UNICA (União da Indústria de Cana-de-açúcar) fechou os números da safra 2021/2022. A moagem de cana ficou em 523,11 milhões de t, 13,6% menor que o ciclo passado. Já a área caiu 1,38% e a produtividade em 15,12%, devido às secas e geadas que afetaram as lavouras. Já com a safra 2022/23 em andamento, a moagem no Centro Sul começa bem atrasada e temos demanda em boas condições, seja pelos volumes exportados antecipadamente de açúcar, como pelos bons preços do etanol neste momento.

 Estimativa da HedgePoint Global Markets para a cana é a produção de 551 milhões de t, 32,5 milhões de t de açúcar, 9,4 bilhões de litros de anidro; e 15,6 bilhões de litros de hidratado. O ATR cai de 140 para 138,9 kg/t e o mix para açúcar cai de 46 para 44,5%. Já a Archer reduziu a estimativa de produção na safra 2022/23 de 555 para 552 milhões de t. A Canaplan, por sua vez, foi mais conservadora e acredita que a moagem deve ficar em torno de 545 milhões de t. É consenso que deve aumentar o percentual de cana destinada ao etanol nesta safra.

Áreas com cana-de-açúcar transgênica devem dobrar de tamanho na safra 2022/23, de acordo com perspectivas do CTC. O material transgênico protege o canavial contra uma das principais pragas da cultura, a broca da cana, sendo esta capaz de gerar um prejuízo anual de R$ 5 bilhões. Mais uma ferramenta para injetar produtividade e sanidade à lavoura!

Recente pesquisa do PECEGE mostra que os custos no setor de cana subiram cerca de 40% em um ano. O arrendamento foi o pior impacto, com 58% de aumento, chegando a praticamente R$ 2400/ha, atingindo 21% do total do custo. Estes custos foram compensados por preços maiores do etanol (cerca de 69%) e do açúcar (34% para o exportado e 43% para o mercado interno). A margem dos produtores foi de R$ 24/t de cana, pelo Consecana. PECEGE estima em 30% a redução no uso de fertilizantes com a aplicação da vinhaça. Inclusive esta pode ser usada para carregar defensivos agrícolas, reduzindo operações no campo. Além disto, existem ganhos de produtividade.  Bactérias fixadoras de nitrogênio também vem sendo usadas.

ANP publicou despacho estimando que o RenovaBio terá que movimentar cerca de 36,7 milhões de Créditos de Descarbonização (CBios) ao em 2022. Vale sempre lembrar que o CBio é a emissão evitada de uma t de gás carbônico advinda da substituição de fósseis por renováveis. Em 2021 o preço médio foi de quase R$ 98,5. Se este preço for usado como base, teremos uma remuneração adicional no setor de mais de R$ 3 bilhões.

Raizen tem apostado no uso resíduos agroindústrias, dentro da visão de economia circular, para melhor a fertilidade dos canaviais e reduzir sua dependência dos insumos químicos. A empresa projeta ser autossuficiente em nitrogênio e fósforo até 2023/24, fazendo uso da vinhaça e torta de filtro, oriundos de sua atividade industrial. Apenas no último ciclo, mais de 400 mil ha receberam tais subprodutos, evitando o consumo de 40 mil t de fertilizantes químicos.

 Interessante movimento no setor foi a joint-venture, agora aprovada pelo CADE, entre a Copersucar e a Vibra Energia (antiga Petrobrás distribuidora). Esta foi montada para operações conjuntas na comercialização, importação e exportação de etanol anidro e hidratado. A empresa poderá prestar serviços a terceiros e terá uma boa participação no mercado de etanol. Outro movimento interessante da Vibra Energia é o combustível de aviação sustentável, a ser feito pela Brasil BioFuels (BBF) à partir de 2025 usando óleo de palma feito em Roraima e uma unidade industrial em Manaus.

 

No açúcar foram produzidas 32,06 milhões de t (-16,64%) na safra 2021/22; dados da UNICA. Em relação às vendas, no mercado interno foram de 8,42 milhões de t de açúcar (- 4,25%) e as exportações foram de 23,62 milhões de t (-18,37%), o que dá um total de 32,05 milhões de t vendidas (-15,08%).

 As exportações de açúcar no mês de março alcançaram 1,44 milhão de t, volume 27% inferior ao verificado no mesmo mês de 2021. O aumento dos preços em 19,7% não foi suficiente para equilibrar o valor financeiro dos embarques, que atingiram US$ 558,44 milhões (-12,6%).

 De acordo com a Archer, na fixação dos contratos de 21/22 as usinas tiveram um preço médio de R$ 1.640 por t (R$ 1.872 a valores de hoje). Cerca de 80% desta safra já está fixada, contra 86% da anterior. O valor médio desta safra é de R$ 2.178.

 Rússia autorizou importações de 300.000 t de açúcar isentas de impostos visando controlar os preços e exportações do Brasil foram realizadas. Thai Sugar Millers Corp estima a produção de açúcar da Tailândia neste ano em 10 milhões de t, 33% acima do ciclo passado, com moagem acima de 90 milhões de t de cana. Clima e preços estimularam a quantidade. Boa notícia é o aumento da demanda de açúcar na Índia, advinda de aumento no consumo de refrigerantes, sorvetes e outras sobremesas. A ISMA Associação Indiana de Usinas de Açúcar estima que o consumo chegará ao recorde de 27,2 milhões de t. Exportações também devem ser recordes, chegando a 7,2 milhões de t. Estoques devem ficar em apenas 6 milhões de t. Está acontecendo grande expansão em direção a investimentos na para aplicação de vinhaça e no uso de outros subprodutos

 

No etanol, com o fechamento da safra 2021/22, pela UNICA, a produção de etanol ficou em 27,55 bilhões de litros (-9,31%), sendo 10,91 bilhões de anidro (+12,57%) e 16,64 bilhões hidratado (-19,55%). Deste total, o milho já representou 3,47 bilhões de litros, crescendo 34,33%. Foram vendidos 27,53 bilhões de litros (-10,67%) na última safra, sendo 10,90 milhões de litros (+8,42%) de anidro, e 16,63 bilhões de litros (-19,91%) de hidratado. Deste total, 1,63 bilhão de litros (-39,47%) foram exportados. Desta forma, o total de hidratado no mercado interno foi de 15,62 bilhões de litros (-18,69%) e de anidro com 10,28 bilhões (-15,34%). Restam 1,23 bilhão de litros para outras finalidades que não o consumo dos automóveis e a exportação.

 S&P estima que na safra 2022/2023 a produção de etanol fique em 29,8 bilhões de litros advindas da moagem de 562 milhões de t de cana. Serão 2,2 bilhões de litros a mais, incluindo aqui os provenientes do milho. No açúcar serão 33 milhões de t, superando as 32,1 milhões de t da safra 2021/2022. 55,3% da cana irá para etanol.

 O faturamento com os embarques de etanol apresentou crescimento de 39,9%, chegando a US$ 124,64 milhões. Esse aumento é justiçado pelo incremento nos preços que alcançaram US$ 843/t (+44,5%).Datagro vê hoje os preços do etanol anidro importado colocados no Brasil ainda seriam de 8 a 10% maiores que os preços hoje praticados.

 Americanos estão motivados pelos preços mais altos da gasolina a solicitar a aprovação do E15 (15% de etanol na gasolina) durante todo o ano. Hoje ela ainda é proibida no verão. O RFA (Associação de Combustíveis Renováveis dos EUA) estimou as vendas de gasolina E15 (15% de anidro misturado) em 3,08 bilhões e litros no ano de 2021. Um aumento de mais de 60% em relação a 2020. O Governo Biden liberou a venda para os meses mais quentes do verão (entre 1º de junho e 15 de setembro) o que deve impulsionar o consumo. O USDA anunciou um apoio de US$ 5,6 milhões para investimentos em infraestrutura para esta expansão em 7 estados dos EUA, investimento de US$ 700 milhões para produtores de biocombustíveis e outros US$ 100 milhões nas estruturas de distribuição de biocombustíveis e misturas de E15. É uma excelente notícia ao Brasil.

 Mais um investimento em etanol de milho. A Inpasa foi autorizada a realizar o projeto de Dourados (MS), um investimento de R$ 2 bilhões. Segundo a Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE) aumentaram bastante as vendas de carros híbridos no Brasil neste primeiro trimestre, indo de 4500 para quase 10000 unidades. O destaque é para o híbrido a etanol da Toyota. Já as vendas de automóveis caíram 25% no trimestre, vindo de quase 500 mil em 2021 para 375 mil neste ano. As vendas de eletrificados ainda estão em 2,6% do total de automóveis. São três as categorias: elétricos híbridos (HEV), híbridos plug-in (PHEV) e totalmente elétricos (BEV).

 

Marcos Fava Neves é Professor Titular (em tempo parcial) das Faculdades de Administração da USP em Ribeirão Preto e da EAESP/FGV em São Paulo, especialista em planejamento estratégico do agronegócio.

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