ENTREVISTA

Co-fundadora da Bioin Biotecnologia Camila Vargas fala sobre o mercado de biodefensivos e o futuro do setor


Camila Corrêa Vargas é Co-fundadora da Bioin Biotecnologia. Acredita que a união da ciência, tecnologia e empreendedorismo é a chave para o desenvolvimento da agricultura sustentável. É formada em Tecnologia Agropecuária (UERGS), é Mestre em Fitotecnia e Doutora em Fitotecnia (UFRGS).

 

 

  1. A BioIn Biotecnologia avança na criação de Trichogramma pretiosum. Qual a perspectiva de aderência do produto no mercado e quais principais culturas que estão previstas para consumo do produto? Existem defensivos químicos que podem ser utilizados simultaneamente para complementar esse controle? Fale um pouco sobre ele(s).

As perspectivas de aderência são muito boas. Atualmente nossos principais clientes são produtores orgânicos. De forma geral, esses produtores encontram poucas alternativas de produtos de controle de pragas no mercado. Isso faz com que o mercado de biológicos avance mais rapidamente nesse setor.

No entanto, estamos observando um crescente interesse de agricultores convencionais, ao uso de produtos biológicos. Principalmente devido a resistência de diversas espécies aos defensivos químicos. Também, pela crescente cobrança do mercado consumidor para redução do uso de químicos em produção de alimentos. Tudo isso, permite que a BioIn tenha um mercado potencial a ser explorado no Brasil através de Trichogramma pretiosum (nome comercial: BIOIN-TRICHO-P).

A microvespa T. pretiosum é bastante generalista. Permite que seu uso seja feito desde cultivos em estufa, como tomate, até cultivo de grãos, como soja e milho. Atualmente, nossos principais clientes atuam no setor de hortifruti. No entanto, isso se deve principalmente ao perfil dos agricultores orgânicos do Rio Grande do Sul. O produto também pode ser utilizado em produções de grãos. É importante que exista um planejamento prévio de aplicações.

Sim, existem defensivos que podem ser utilizados junto com T. pretiosum. São conhecidos como produtos seletivos. Alguns exemplos são produtos com ingrediente ativo à base de Acequinocil, Ciromazina, Clorfluarzuron ou Oxicarnoxina. Mas é fundamental que nesses casos, os produtores tenham apoio de um agrônomo ou técnico agrícola para a escolha dos melhores produtos. BIOIN-TRICHO-P também é compatível com produtos microbiológicos, por exemplo, Bacillus thuringiensis.

 

  1. O mercado de defensivos biológicos cresceu 37% só no ano de 2021. Quais as perspectivas de crescimento da empresa para acompanhar a maior demanda do mercado? Quais novos produtos a BioIn tem previsão de lançar nos próximos anos?

Esse crescimento mostra um grande potencial a ser explorado no Brasil. No entanto, também traz desafios para o avanço da empresa. Estamos muito otimistas frente as novas possibilidades e maior aceitação dos agricultores. A BioIn atuava até 2021 somente do estado do Rio Grande do Sul. No momento, estamos projetando nossa expansão para outras regiões do país. Isso trará um grande crescimento e possibilidade de explorar novas culturas.

Atualmente estamos trabalhando em dois novos produtos. Um focado para controle para controle dos percevejos da soja, a microvespa Telenomus podisi. A espécie controla os ovos das pragas e apresenta resultados satisfatório em diversas pesquisas. Ainda estamos iniciando as pesquisas com o parasitoide Diachasmimorpha longicaudata. O inseto tem atua no controle das espécies Anastrepha fraterculus e Ceratitis capitata, importantes pragas da fruticultura. Ambas as espécies estão na fase de pesquisa de mercado e laboratorial.

 

  1. A BioIn trabalha em seu portifólio com itens de manejo de praga, qual a importância do monitoramento de pragas em uma plantação?

Sim, ao longo de nossa caminhada como empresa estamos sempre buscando boas parcerias. Para nós, o controle de pragas não deve ser realizado através de apenas uma ferramenta. Fomentamos os preceitos do Manejo Integrado de Pragas (MIP), que descreve como um de seus pilares, o monitoramento de pragas.

Monitorar é conhecer o fluxo populacional das pragas no cultivo.  Assim, o agricultor pode entender qual o melhor momento para realizar o controle de pragas. O monitoramento deve ser realizado em qualquer manejo, seja orgânico ou convencional. É fundamental para realizar controles mais efetivos. Muitas vezes, aplicações não são efetivas por serem aplicadas no momento errado. Outras vezes, algumas aplicações são desnecessárias, pois a praga não está presente na produção. Monitorar é ter liberdade para a tomada de decisão. E fomentamos isso através de nosso portifólio de ferramentas de monitoramento.

 

  1. Os produtores rurais têm se conscientizado para utilização de biológicos juntamente com agroquímicos, o que reflete o crescimento do setor ano a ano. Na visão da BioIn quais as principais culturas que tem demandado o uso dos biológicos? Para quais outros segmentos do agronegócio são possíveis expandir dentro do setor de biológicos?

Atualmente, os setores produtivos que mais demandam biológicos são hortifruti e grãos. Com destaque para tomate, soja e milho. No entanto, isso se deve a vasta produção desses cultivos no Brasil. Assim, as empresas acabam buscando soluções inicialmente para essas culturas, devido ao tamanho do mercado.

No entanto, quando falamos de produtos biológicos o campo de atuação é vasto. Se pensarmos na riqueza do ecossistema brasileiro, diversas espécies de insetos, fungos e bactérias podem ser estudadas para uso em controle biológico.

Sobre os seguimentos, todos aqueles que tenham mercado e demanda podem ser atendidos por produtos biológicos. Claro que nestes casos, deve-se pesquisar o cultivo e desenvolver um produto adequado para a demanda. Assim como as pragas são diferentes em cada cultivo, a solução biológica também é.

É importante salientar que o mercado de biológicos é regulamentado pelo MAPA, ANVISA e IBAMA. Os produtores devem sempre se certificar que estão adquirindo produtos registrados.

 

  1. A pandemia da Covid-19 trouxe uma mudança no consumo de alimentos e defensivos, visando esse cenário, qual a visão da empresa para o futuro do mercado em defensivos biológicos? E como foi a pandemia de COVID-19 para o mercado no segmento?

A agricultura sustentável é um caminho sem volta. O movimento agrícola mundial aponta para uma produção mais limpa e sustentável. Preservar nossos solos, água, ar, fauna e flora é essencial para mantermos recursos para as próximas gerações. Por isso, vemos um futuro muito otimista para as tecnologias biológicas.

Nossa visão é que devemos unir ciência, tecnologia e conhecimento para desenvolvermos uma agricultura mais sustentável. O mercado pede por produtos biológicos, mas precisamos que centros de pesquisa, universidades, governo, agricultores e empresas trabalhem em conjunto.

 O início da pandemia de COVID-19 foi o momento que o setor apresentou as maiores dificuldades. Com a instabilidade, a aquisição de insumos foi afetada. Mas rapidamente começou a se equilibrar. O que percebemos foi uma adesão maior dos agricultores a tecnologias. Antes da pandemia, os técnicos precisavam ir até a propriedade apresentar novos produtos. Hoje vemos um aumento da aceitação dos produtos através de uma conversa por aplicativos ou ligação.

 

  1. Diferente dos defensivos químicos, os defensivos biológicos são menos dependentes de importações. Quais os principais benefícios que o mercado terá, principalmente em um momento de escassez de produtos químicos?

Neste caso, veremos um aumento da adesão de agricultores ao uso de produtos biológicos. O produtor já tem essa preocupação e já busca conhecer novas soluções. Um movimento crescente que observamos é a regionalização. Cada vez mais o agricultor, principalmente o familiar, vende seus produtos na própria região. Isso acarreta a formação de microrregiões de comércio. O produtor vai buscar comprar insumos na mesma região que vende seus produtos. Criando assim, uma cadeia de confiança, que é o perfil dos nossos produtores. Por isso, a BioIn acredita que biofábricas de insumos biológicos regionalizadas sejam um ponto chave para o aumento do setor.

 

Fonte: Equipe Global Crop Protection, 14/02/2022

Fonte da Imagem: Pixabay

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