ENTREVISTA

Pesquisadora do IAC fala sobre manejo integrado de pragas


Leila Luci Dinardo-Miranda, pesquisadora do instituto agronômico (IAC) da secretaria  de agricultura e abastecimento do estado de São Paulo

Leila Luci Dinardo-Miranda é pesquisadora do instituto agronômico (IAC) da secretaria de agricultura e abastecimento do estado de São Paulo. Engenheira agrônoma formada pela Unesp Jaboticabal, mestrado e doutorado na USP,  é responsável pela área de manejo integrado de pragas do Centro de Cana do IAC.

 

 

 

1. Hoje, o IAC apresenta uma grande contribuição em pesquisa e desenvolvimento para o agronegócio brasileiro. Neste sentido, quais são as principais tecnologias disponíveis para auxiliar o produtor de cana-de-açúcar a minimizar os riscos de resistência nas principais pragas da cultura?

O que nós fazemos no IAC é desenvolver um programa de manejo integrado de pragas. Esse programa visa orientar o produtor a fazer amostragens para saber onde ele tem praga e quanto ele tem de cada espécie.

Fazemos trabalhos para verificar o nível de dano econômico e nível de controle. Desenvolvemos de trabalhos para verificar os danos causados pela praga, informando o produtor. Além disso, fazemos uma série de experimentos para verificar a eficiência das medidas de controle. Isso que é um programa de manejo integrado de pragas.

O IAC determina esses parâmetros para montar um programa de manejo integrado de pragas para os produtores e, com isso, ele faz um uso mais adequado, racional, tecnicamente correto de defensivos agrícolas e de outras ferramentas de controle. Desta forma, há uma menor chance de o produtor selecionar indivíduos resistentes e ter problemas com resistência de pragas a inseticidas.

 

2. Uma das causas da resistência química pragas na cana é a aplicação incorreta dos defensivos agrícolas. O IAC elabora estratégias para a conscientização dos produtores?

Sim. O IAC, além de desenvolver ensaios para estimar um parâmetro para montar um programa de manejo integrado de pragas, também oferece treinamento aos produtores para usar esses parâmetros.

Oferecemos uma série de palestras e cursos para orientar os produtores a implantar um programa de manejo de pragas e, com isso, diminuir o problema de resistência das pragas aos inseticidas. O IAC trabalha muito nesse sentido, não só desenvolvendo e fazendo pesquisas para reduzir o risco, mas também passando os resultados em cursos e palestras para produtores.

 

3. Atualmente uma das principais pragas da cultura da cana é a Diatraea saccharalis (Broca-da-cana), sendo o seu controle químico realizado por defensivos como Clorantraniliprole, Metoxifenozina+Espinotoram e Flubendiamida. Neste sentido, a praga já apresenta resistência em relação a algum destes princípios ativos?

Não que nós saibamos. Ainda não há registros de populações de Diatraea saccharalis resistente aos inseticidas.

No entanto, as características biológicas da praga e as características desses doze inseticidas utilizados para controle da broca-da-cana, nos alertam que, se esses produtos forem mal utilizados de forma contínua, isso pode fazer com que insetos resistentes sejam selecionados e a gente possa vir a ter problemas no futuro.

Porém, até o momento não existe registro disso. Por este motivo é que nós alertamos os produtores sobre a necessidade de um uso correto dos defensivos agrícolas, para que eles façam a rotação de produtos com o intuito de reduzir a probabilidade de selecionar indivíduos resistentes.

 

4. Os defensivos biológicos já vêm sendo muito utilizados no controle desta lagarta. Há uma estimativa de redução na aplicação dos inseticidas químicos após a consolidação da aplicação biológica?

O que tem acontecido no Brasil foi o contrário. Antigamente só se usava controle biológico da lagarta da broca-da-cana, mas uma série de fatores fizeram com que as populações da praga aumentassem muito e só o controle biológico não estava sendo suficiente para manter as populações em um nível tolerável. Por esse motivo o uso de inseticidas químicos para a broca-da-cana foi crescente.

De uma maneira geral, o uso de inseticidas químicos para controle da broca, na imensa maioria das usinas, ocorre junto com o controle biológico. Nesse caso, nós temos um exemplo de controle integrado de pragas, usando o controle químico e controle biológico. Nas condições da cana hoje, em algumas situações, é difícil manter as populações de broca num nível baixo ou num nível que ela não cause danos, utilizando apenas o controle biológico.

Em algumas situações é importante usar inseticidas químicos, desde que se faça o uso correto, no momento adequado e tomando uma série de cuidados, embora o controle biológico nunca deva ser abandonado. Desta forma, a tendência para o futuro é haver mais integração entre as duas ferramentas, o químico e o biológico, para controle de broca.

 

5. Em relação ao ciclo de desenvolvimento das cigarrinhas (Mahanarva fimbriolata), para 2021 é possível que a praga complete 2 ciclos em caso de antecipação das chuvas? No caso de aumento de ciclo do inseto no ano, quais as melhores alternativas para evitar a resistência aos princípios ativos tais como o Tiametoxam e o Etiprole?

A cigarrinha, em condições normais, completa até três ciclos durante o período chuvoso. Os ciclos duram, em média, 60 dias. Então, em um verão bastante chuvoso, a gente pode ter até três ciclos e, em algumas regiões, até quatro ciclos (como é o caso MS, que chove mais). O número de ciclos da cigarrinha depende da chuva, porém ter dois ciclos é bastante comum.

Em relação a segunda pergunta, a alternativa é fazer a rotação de produtos ativos. Hoje, nós temos outros inseticidas que foram liberados para uso. A gente deve acrescentar esses novos produtos em um programa de manejo, além de incluir nesse programa um controle biológico da cigarrinha.

Fonte: Equipe Global Crop Protection, 01/09/2021

Fonte da Imagem: Imagem de Bishnu Sarangi por Pixabay

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